AngioTC avança como ferramenta na prevenção cardiovascular

Por Fernanda Erthal e Filipe Penna

Fernanda Erthal

A Doença Arterial Coronariana (DAC) continua entre as principais causas de mortalidade no Brasil e no mundo. Para se ter uma ideia, só esse ano foram mais de 140 mil óbitos no país segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Por décadas, a cardiologia concentrou esforços no tratamento das fases mais avançadas da doença, especialmente da obstrução coronariana significativa, que pode culminar em infarto. Mas dados epidemiológicos recentes mostram que uma parcela importante dos eventos cardiovasculares acontece em pacientes de baixo risco ou sem sintomas clássicos.

O grande desafio atual não é apenas tratar a artéria já acometida, mas identificar a aterosclerose muito antes que ela se torne uma ameaça aguda. Nesse contexto, a angiotomografia de coronárias (angioTC) vem se consolidando como uma ferramenta fundamental de prevenção.

Filipe Penna

Historicamente, o foco desse exame era a detecção de isquemia, redução do fluxo sanguíneo causada por obstruções relevantes nas artérias coronárias. Hoje, a ciência reconhece que o processo de entupimento arterial começa de forma silenciosa muitos anos antes do surgimento dos sintomas. Em inúmeros casos, placas ainda sem obstrução importante podem apresentar vulnerabilidade e se romperem subitamente, desencadeando eventos graves, como infarto agudo do miocárdio.

A angioTC representa uma mudança importante de paradigma para o diagnóstico. Diferentemente dos exames funcionais tradicionais, que identificam alterações apenas quando o fluxo sanguíneo já está comprometido, a angioTC permite visualizar diretamente a parede das artérias coronárias. É um método não invasivo, rápido e de alta acurácia, capaz de identificar a presença, a localização, a extensão e as características das placas ateroscleróticas, incluindo o grau de calcificação e os sinais associados à maior vulnerabilidade.

Essa capacidade diagnóstica ganha ainda mais relevância quando integrada à avaliação genética. Tema discutido no último congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj), os Escores de Risco Poligênico (PRS) ampliam as possibilidades da medicina cardiovascular personalizada. Ao combinar os achados anatômicos da angioTC com o perfil genético do paciente, torna-se possível identificar indivíduos com maior predisposição hereditária ao desenvolvimento precoce da aterosclerose e avaliar se essa predisposição já se manifesta nas artérias coronárias.

Essa integração pode auxiliar na reestratificação do risco cardiovascular e contribuir para decisões terapêuticas mais individualizadas, incluindo a introdução mais precoce ou a intensificação de terapias medicamentosas e dietéticas voltados para reduzir os níveis de lipídios no sangue, mesmo em pacientes com níveis de colesterol aparentemente adequados nos exames convencionais. É importante destacar que os exames genéticos são uma ferramenta complementar e promissora da medicina de precisão que ainda está em processo de incorporação progressiva à prática clínica e às diretrizes internacionais.

Outro ponto importante é a elevada capacidade da angioTC de afastar doença coronariana obstrutiva significativa. O método apresenta alto valor preditivo negativo, frequentemente próximo de 99% em populações adequadamente selecionadas. Na prática, isso significa aumento da segurança diagnóstica e redução de procedimentos invasivos desnecessários, como o cateterismo cardíaco em pacientes sem doença relevante. Atualmente, diretrizes internacionais, como as da European Society of Cardiology (ESC) e do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), já recomendam a angioTC como exame de primeira linha na investigação da dor torácica estável.

Como todo método diagnóstico, a angioTC também possui limitações, incluindo exposição à radiação – embora cada vez menor com os protocolos modernos –, necessidade de contraste iodado, custo e disponibilidade ainda variável, especialmente no sistema público de saúde. Por isso, sua indicação deve sempre ser individualizada e baseada em avaliação clínica criteriosa.

O futuro da cardiologia passa pela integração entre tecnologia avançada, medicina de precisão e interpretação especializada. Equipamentos modernos são fundamentais, mas o verdadeiro valor está na análise realizada por médicos com expertise em imagem cardiovascular, profissionais capazes de transformar informações anatômicas e funcionais em decisões terapêuticas mais precisas e personalizadas.

Não podemos mais aceitar que o primeiro sinal da doença coronariana seja um evento grave. Ao incorporar estratégias preditivas não invasivas e cada vez mais individualizadas, ampliamos a oportunidade de intervir precocemente, modificar o curso da doença e promover uma cardiologia verdadeiramente preventiva.


*Fernanda Erthal e Filipe Penna são cardiologistas e especialistas em imagem cardiovascular da CDPI e do Alta Diagnósticos, da Dasa, no Rio de Janeiro.

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