Preço acessível é estratégia de capilaridade no setor da saúde
Por Beatriz Brisotti
No Brasil, milhões de pessoas não deixam de cuidar da saúde por falta de vontade. Deixam porque, muitas vezes, precisam escolher entre pagar uma consulta, comprar um medicamento ou equilibrar o orçamento do mês.
Essa é uma realidade que conhecemos de perto todos os dias. E ela nos mostra que o principal desafio da saúde brasileira não é apenas ampliar a oferta de profissionais ou serviços, mas construir modelos capazes de transformar acesso em cuidado contínuo para a população que mais precisa.
Os brasileiros valorizam a saúde. Dados do Instituto Locomotiva mostram que 87% da população considera o bem-estar, a saúde física e a saúde mental prioridades em suas vidas. No entanto, apenas 33% afirmam ter condições financeiras para investir continuamente em autocuidado.
Essa realidade é ainda mais evidente entre as classes D e E. Pressionados pelo orçamento doméstico, 25% dos brasileiros desse grupo afirmam não investir em autocuidado por falta de recursos financeiros. Outros 35% recorrem aos serviços de saúde apenas de forma ocasional.
Na prática, isso significa milhões de pessoas adiando consultas, exames preventivos e acompanhamentos médicos. Não por falta de interesse, mas porque o acesso ainda representa uma barreira financeira para uma parcela significativa da população.
Ao mesmo tempo, existe uma demanda concreta por cuidado. São pessoas que desejam acompanhar sua saúde, prevenir doenças e buscar tratamento quando necessário, mas encontram limitações para transformar essa intenção em uma rotina de cuidado.
É nesse contexto que a acessibilidade assume um papel estratégico. Quando os serviços de saúde são oferecidos de forma compatível com a realidade financeira das famílias brasileiras, mais pessoas conseguem entrar e permanecer dentro da jornada de cuidado.
Para além de realizar uma consulta ou exame isolado, o verdadeiro desafio é garantir que o paciente consiga dar continuidade ao seu acompanhamento. Consultar um médico específico quando necessário, realizar exames, retornar ao médico, acompanhar tratamentos e cuidar da saúde de forma preventiva. Quando a saúde cabe no orçamento das famílias, ela deixa de ser uma decisão pontual e passa a fazer parte da rotina das pessoas.
Sob a perspectiva empresarial, esse modelo também permite ampliar o alcance da saúde privada para públicos historicamente pouco atendidos. Trata-se de uma oportunidade de crescimento baseada em escala, eficiência operacional e proximidade com comunidades que ainda enfrentam limitações importantes de acesso.
Além dos grandes centros urbanos, essa lógica ganha ainda mais relevância no interior do país, uma vez que a discussão sobre acesso à saúde no Brasil passa necessariamente pela distribuição dos serviços e dos profissionais.
Segundo a Demografia Médica no Brasil, os 48 municípios com mais de 500 mil habitantes concentram 57,8% de todos os médicos do país. Esse dado ajuda a explicar por que tantas cidades de pequeno e médio porte ainda enfrentam dificuldades para oferecer atendimento próximo e regular à população. Em muitos casos, o desafio não é apenas atrair profissionais, mas construir operações sustentáveis e economicamente viáveis fora dos grandes centros urbanos.
Foi justamente nesse cenário que modelos de saúde acessível encontraram espaço para crescer. Em localidades onde grandes estruturas hospitalares frequentemente enfrentam dificuldades para se estabelecer, essas operações conseguem criar uma alternativa de atendimento compatível com a realidade econômica da população e com as necessidades locais.
Naturalmente, esse não é um caminho simples. Construir um modelo sustentável exige equilibrar acessibilidade para os pacientes, remuneração adequada para os profissionais de saúde, qualidade assistencial e eficiência operacional. Mas a experiência mostra que esse equilíbrio é possível. Quando existe gestão estruturada, escala, tecnologia e conhecimento profundo das necessidades da população atendida, é possível ampliar o acesso sem abrir mão da qualidade.
O futuro da saúde acessível no Brasil passa pela capacidade de estarmos presentes onde a população está e quando ela precisa de cuidado. Em um país marcado por profundas desigualdades de acesso, ampliar a presença da saúde para além dos grandes centros urbanos não é apenas uma oportunidade de expansão. É uma oportunidade de transformar a relação de milhões de brasileiros com a própria saúde.
Mais do que oferecer consultas e exames a preços acessíveis, o desafio é garantir que as pessoas consigam permanecer dentro de uma jornada contínua de cuidado, com acesso à prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento ao longo da vida. Porque o acesso não é apenas conseguir uma consulta, é garantir que milhões de brasileiros possam cuidar da própria saúde de forma contínua, próxima e sustentável ao longo da vida.
*Beatriz Brisotti é CEO do AmorSaúde.

