Arte da Estratégia: por que a saúde ainda decide de forma reativa

Por Jorge Luiz Andrade

O setor de saúde é um dos que mais lida com risco e incerteza e, paradoxalmente, uma das áreas que ainda toma muitas decisões de forma reativa. Espera o problema acontecer para então agir. Essa postura, além de custosa, mina a eficiência e compromete resultados clínicos e financeiros. É aqui que a teoria dos jogos expõe um erro estrutural: não antecipar cenários, não calcular incentivos e não planejar as reações dos diferentes atores envolvidos.

Na anestesiologia, aprendi que cada decisão precisa ser tomada antes do imprevisto. Antecipar complicações, preparar alternativas e coordenar a equipe é o que salva vidas. O mesmo raciocínio deveria valer para a gestão em saúde. No entanto, muitas instituições ainda operam como se estivessem em modo emergência permanente, reagindo a pressões de fornecedores, demandas de pacientes ou crises financeiras sem estratégia clara.

A leitura de A Arte da Estratégia, de Avinash Dixit e Barry Nalebuff, reforça essa crítica. O livro mostra que pensar estrategicamente é mapear incentivos e prever movimentos. No setor de saúde, isso significa entender que investimentos não podem ser guiados apenas por urgência, mas por cenários sustentáveis. Já as negociações com fornecedores devem considerar reações futuras, não apenas o preço imediato. Além disso, políticas internas precisam alinhar incentivos para evitar comportamentos que geram desperdício ou desmotivação.

O atrito está em afirmar que a saúde brasileira ainda não incorporou a lógica estratégica como deveria. Continuamos a decidir como se estivéssemos em um jogo de curto prazo, quando na verdade estamos em uma jornada de longo prazo, na qual reputação, confiança e sustentabilidade importam tanto quanto o resultado imediato.

Defendo que médicos e gestores precisam abandonar a postura reativa e adotar a disciplina estratégica. Antecipar cenários não é luxo intelectual, é sobrevivência institucional. A teoria dos jogos não é apenas uma ferramenta acadêmica: é um alerta de que, sem estratégia, o setor continuará desperdiçando recursos e oportunidades.

A saúde do futuro será definida por quem conseguir transformar decisões em movimentos calculados, equilibrando interesses e criando valor sustentável. E isso exige coragem para admitir que o modelo atual é falho e disposição para jogar de forma diferente.


*Jorge Luiz Andrade é anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu.

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