Com maior número de psicólogos, Brasil não sabe formar terapeutas

Por Adriane Kiperman

O Brasil ostenta um título que poucos conhecem e que deveria provocar mais perguntas do que orgulho: é o país com o maior número absoluto de psicólogos no mundo. São mais de 500 mil profissionais registrados — mais do que os Estados Unidos em termos proporcionais, mais do que qualquer nação europeia. E, no entanto, os índices de sofrimento psíquico da população brasileira seguem entre os mais altos do planeta. Depressão, ansiedade, burnout, suicídio : o Brasil lidera rankings que ninguém quer liderar.

Como é possível ter tantos psicólogos e tamanha falta de saúde mental?

A resposta desconfortável está na formação.

Uma formação para o século passado

A graduação em psicologia no Brasil foi estruturada, em grande medida, num modelo generalista que privilegia a diversidade teórica em detrimento da profundidade clínica. O estudante passa cinco anos circulando por dezenas de abordagens — algumas com sólida base científica, outras sem um único ensaio clínico controlado que as sustente — e chega ao consultório sem dominar nenhuma delas com a competência que o cuidado humano exige.

A legislação brasileira autoriza a prática clínica, independente de experiência e conhecimento comprovado na área. Não temos a obrigação de especialização e residência como é necessário para Psicólogos no exterior e para Médicos no pais, nem, ao menos, provas de qualificação como o Direito exige no Brasil.

Não se trata de uma crítica às pessoas, mas ao sistema. Em medicina, ninguém se torna cirurgião sem anos de prática supervisionada, com feedback constante e métricas claras de desempenho. Na psicologia brasileira, o estágio supervisionado muitas vezes se resume a horas cumpridas, não a competências desenvolvidas. A pergunta “este estudante sabe fazer psicoterapia?” raramente tem resposta baseada em dados.

O que a ciência do aprendizado nos diz

Há décadas, pesquisadores como Anders Ericsson demonstraram que expertise não é resultado de tempo de exposição, mas de prática deliberada: repetição com feedback imediato, foco em pontos de melhoria específicos, e progressão estruturada de complexidade. Isso vale para músicos, atletas — e terapeutas.

A literatura internacional sobre treinamento de psicoterapeutas é clara: supervisão de qualidade, uso de gravações de sessões, avaliação sistemática dos resultados dos pacientes e ensino baseado em problemas reais produzem profissionais significativamente mais eficazes do que o modelo tradicional de aulas expositivas e estágios pouco estruturados.

No exterior, esse debate já produziu mudanças concretas. Programas acreditados nos Estados Unidos e Europa exigem que estudantes demonstrem competências específicas antes de se formarem. A APA, American Psychology Association tem estabelecido claramente quais os melhores métodos de treinamento e quais as competências devem ser desenvolvidas nos candidatos a psicoterapeutas. No Brasil, ainda debatemos se a Psicoterapia é ou não campo exclusivo da Psicologia e nem se chega perto de discussões sobre qualidade e performance dos profissionais.

Medir para melhorar

Há outro elemento crítico que a formação brasileira praticamente ignora: o monitoramento sistemático de resultados clínicos. Em países com sistemas de saúde mais maduros, é prática estabelecida que terapeutas acompanhem o progresso de seus pacientes com instrumentos validados — não por burocracia, mas porque os dados mostram que feedback contínuo melhora os resultados do tratamento, especialmente nos casos que não estão evoluindo como esperado.

Um psicólogo que não sabe se seu paciente está melhorando não está praticando psicoterapia com responsabilidade clínica. Está praticando fé. Pode ter até boa vontade e empatia, não será terapêutico no sentido estrito da palavra.

O que precisa mudar

A boa notícia é que existe um modelo alternativo — e ele não precisa ser inventado. A psicologia baseada em evidências, com metodologias pedagógicas como o Problem-Based Learning e a Prática Deliberada, já demonstrou resultados superiores em contextos internacionais. Formar terapeutas competentes não é mistério: é método.

O Brasil tem a escala, a demanda e o capital humano para liderar essa transformação. O que falta é a disposição de questionar um modelo de formação que, por décadas, confundiu quantidade de conteúdo com qualidade de preparo.

Ter o maior número de psicólogos do mundo é, potencialmente, um ativo extraordinário. Mas esse potencial só se converte em saúde pública real quando esses profissionais chegam ao consultório sabendo — com rigor, com ciência e com humildade clínica — o que estão fazendo. Hora de transformar a formação!


*Adriane Kiperman é mestre em psicologia clínica pela PUC-RS, especialista em psicologia da infância e adolescência e Conselheira da Artmed School of Psychology (APSY).

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