Telemedicina avança no Brasil, mas fica concentrada no Sul
Santa Catarina se tornou o estado com maior adesão à telemedicina no Brasil. Dados da plataforma BoaConsulta mostram que 20,7% das consultas realizadas no estado já acontecem de forma remota — o equivalente a uma em cada cinco. O índice coloca SC na liderança nacional e ajuda a puxar o desempenho da região Sul, onde 13,26% dos atendimentos já ocorrem online. Apesar do avanço, a telemedicina ainda representa apenas 3,7% das consultas intermediadas pela plataforma no país.
O levantamento evidencia que a digitalização da saúde ganhou tração no Brasil nos últimos anos, especialmente após a regulamentação definitiva da telemedicina pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Em 2020, as consultas online representavam apenas 0,68% dos atendimentos realizados pelo BoaConsulta. O maior salto aconteceu entre 2023 e 2024, quando a participação subiu de 2,22% para 3,14%, consolidando a modalidade como parte da jornada de acesso à saúde.
A saúde mental lidera o avanço da telemedicina no país. A psiquiatria aparece como a especialidade com maior adesão ao modelo remoto: 15,9% das consultas já acontecem online, cerca de uma a cada seis. A psicologia vem na sequência, com 9,8% dos atendimentos realizados virtualmente. Especialidades como gastroenterologia (6,6%) e clínica médica (3,54%) também passaram a incorporar o formato, principalmente em retornos, acompanhamento de pacientes e avaliação de exames.

Apesar do crescimento, o uso da telemedicina ainda acontece de forma desigual no país. Enquanto o Sul concentra os maiores índices de adoção, outras regiões avançam em ritmo mais lento. No Sudeste, por exemplo, apenas 2,19% das consultas são remotas. Já o Centro-Oeste saiu de 0,05% em 2020 para 0,89% em 2026.
Roberto Cruz, co-CEO da Pixeon, que possui sede em Florianópolis, avalia que a expansão da telemedicina depende da capacidade das instituições de integrar prontuários, exames, prescrições e histórico do paciente em uma jornada digital contínua. “Santa Catarina apresenta uma maturidade digital mais avançada por contar com um ecossistema forte de tecnologia e inovação, além de um ambiente favorável à transformação digital na saúde. Esse contexto facilitou a adoção mais acelerada da telemedicina nos últimos anos e contribuiu para que hospitais, clínicas e pacientes estejam hoje mais familiarizados com modelos de atendimento digitais e com jornadas de cuidado mais integradas”, explica.
A pandemia foi o principal ponto de virada para a popularização das consultas online, mas a permanência do modelo está ligada à percepção de conveniência, ganho de acesso e maior eficiência operacional, aponta o BoaConsulta. A telemedicina também passou a funcionar como ferramenta de triagem e acompanhamento de casos de baixa complexidade, ajudando a desafogar clínicas e hospitais.
Para ampliar a adesão em outras regiões, o esperado é maior integração entre sistemas de saúde, ampliação da infraestrutura digital e investimentos em interoperabilidade de dados. “Para que a telemedicina avance de forma mais consistente em outras regiões, ainda é necessário evoluir na integração entre sistemas, conectividade e acesso à infraestrutura digital. Muitas instituições já deram os primeiros passos na digitalização, mas ainda enfrentam desafios para conectar dados e estruturar jornadas mais contínuas para os pacientes”, afirma Roberto.
A expectativa do mercado é que o próximo ciclo de crescimento da telemedicina seja impulsionado pela combinação entre inteligência artificial, automação operacional e integração de dados clínicos. Nesse cenário, a discussão deixa de envolver apenas consultas por vídeo e passa a considerar jornadas de cuidado mais contínuas, conectadas e escaláveis.

