O ciclo insustentável de remediar as consequências da obesidade
Por César De Fazzio
O avanço da ciência nos deu ferramentas extraordinárias para gerenciar doenças crônicas. Hoje, um paciente com diabetes tipo 2, pressão alta ou colesterol elevado consegue estender sua expectativa de vida graças a uma vasta gama de medicamentos desenvolvidos para controlar a pressão, regular o açúcar no sangue e estabilizar o perfil cardiovascular. No entanto, precisamos encarar a incômoda realidade de que muitas vezes o foco tem sido atenuar consequências em vez de tratar a causa raiz do problema.
Os números revelam a dimensão do desafio. Segundo o levantamento Vigitel 2025, o diabetes atinge 12,9% da população adulta das capitais do país e do Distrito Federal, enquanto quase 30% é acometido pela hipertensão — fator de risco para doenças cardiovasculares, que são a principal causa de morte no mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Já o colesterol alto é um problema para cerca de 15% dos brasileiros adultos, conforme mostrou a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019. E não é incomum essas e outras doenças estarem associadas à obesidade, uma condição crônica e multifatorial com 25,7% de prevalência, ainda segundo o Vigitel.
É um erro enxergar a obesidade como uma mera questão de excesso de peso ou falta de força de vontade. Trata-se, na verdade, de uma doença metabólica complexa, inflamatória e sistêmica, regulada pelo sistema endócrino. O excesso de tecido adiposo sabota o próprio organismo, gerando resistência severa à insulina que sobrecarrega o pâncreas e inflama as paredes das artérias. O resultado dessa engrenagem disfuncional é o colapso gradual dos órgãos. Continuar adicionando novos fármacos para mitigar cada um desses danos sem intervir no mecanismo que os desencadeia é uma estratégia terapêutica insustentável a longo prazo.
Como médico bariátrico e estudioso das doenças metabólicas, tenho observado um ciclo de dependência de remédios nos consultórios. O paciente obeso acumula receitas, passa a frequentar a farmácia com a regularidade de quem vai ao supermercado e gasta centenas de reais mensalmente para silenciar sintomas, sem enfrentar o que os provoca.
É nesse cenário que a cirurgia bariátrica e metabólica, também conhecida como cirurgia de redução de estômago, se posiciona não como um recurso estético ou um gasto hospitalar, mas como um investimento com alto índice de eficiência terapêutica, quando bem indicada e executada. A mudança anatômica promovida no trato gastrointestinal desencadeia uma reprogramação endócrina profunda e imediata, com modificação instantânea na secreção de hormônios intestinais que reequilibram o eixo metabólico, reduzem a inflamação e otimizam a sensibilidade à insulina.
A velocidade desse impacto é impressionante e desmistifica a ideia de que o benefício da cirurgia decorre apenas do emagrecimento posterior. No caso do diabetes tipo 2, parte dos pacientes que utilizam medicações orais consegue suspender completamente já no primeiro dia pós-operatório, devido à imediata resposta hormonal do novo arranjo digestivo. No que diz respeito à hipertensão, o reequilíbrio metabólico reduz a retenção de sódio e devolve flexibilidade aos vasos sanguíneos com tamanha rapidez que as doses de anti-hipertensivos precisam ser revistas ou suspensas nas primeiras semanas para evitar quedas severas de pressão.
Além do benefício clínico, romper esse ciclo pode ser a decisão mais sustentável para a economia familiar, pois o paciente reduz ou elimina gastos com remédios de uso contínuo. A conta tampouco fecha do ponto de vista da saúde pública. O Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) calcula que um beneficiário com obesidade grave ou mórbida custa cerca de R$ 33 mil por ano aos planos de saúde e, sem políticas efetivas de enfrentamento da doença, a obesidade pode responder por mais da metade de toda a despesa assistencial da saúde suplementar até 2030.
Para pacientes com indicação clara, a cirurgia remove o indivíduo da condição de refém dos sintomas crônicos e devolve a ele a autonomia de uma vida mais equilibrada. Tratar a raiz biológica da doença não é um atalho, é um caminho técnico para restabelecer a saúde de forma duradoura. Em escala, é também uma escolha estratégica: a de um sistema que investe em resolver problemas em vez de apenas silenciá-los.
*César De Fazzio é cirurgião bariátrico e diretor do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília.

