Embriologista continua decisivo para o sucesso da fertilização in vitro
Muito antes da inteligência artificial chegar aos laboratórios de fertilização in vitro, um profissional já desempenhava um papel decisivo para o sucesso dos tratamentos, o embriologista. É ele quem acompanha o desenvolvimento dos embriões, interpreta as informações geradas em laboratório e, junto à equipe médica, participa das decisões que podem influenciar as chances de gravidez. Agora, com o avanço da inteligência artificial, esse trabalho ganhou uma aliada poderosa, pois algoritmos já conseguem analisar milhares de imagens embrionárias e identificar padrões que auxiliam na avaliação do potencial de desenvolvimento dos embriões. Mas isso levanta uma dúvida cada vez mais comum entre os pacientes: a inteligência artificial já decide quais embriões têm maiores chances de implantação? O embriologista poderá ser substituído pelas máquinas?

A resposta, segundo especialistas, é não. “A inteligência artificial já faz parte da rotina dos laboratórios. Nos últimos anos, ela deixou de ser uma aposta experimental e passou a ocupar um papel importante na reprodução assistida, mas sempre como ferramenta de apoio ao especialista”, afirma José Roberto Alegretti, diretor de Embriologia do Grupo Huntington.
Segundo ele, o trabalho do embriologista vai muito além da análise das imagens dos embriões. O profissional acompanha todo o processo laboratorial da fertilização in vitro, desde a manipulação dos gametas até o cultivo embrionário, interpretando as informações geradas pelos equipamentos à luz do histórico clínico e das características de cada paciente.
Ferramentas baseadas em aprendizado de máquina já auxiliam na avaliação embrionária, na análise de óvulos, na identificação de padrões associados à implantação e até na personalização de protocolos clínicos. O movimento acompanha o crescimento do próprio mercado de reprodução assistida. Segundo projeções internacionais, o mercado global de tecnologias de reprodução assistida deverá saltar de aproximadamente US$ 42 bilhões em 2025 para mais de US$ 90 bilhões até 2034, impulsionado pela incorporação de inteligência artificial, automação laboratorial e medicina de precisão.
A literatura científica mais recente reforça que a IA deve atuar como complemento ao trabalho humano, e não como substituta dos profissionais. Um dos estudos mais relevantes da área, publicado em 2024 na Nature Medicine, avaliou mais de mil pacientes em um ensaio clínico randomizado e duplo-cego e demonstrou que sistemas de inteligência artificial alcançaram resultados clínicos semelhantes aos obtidos pela seleção embrionária convencional realizada por especialistas.
Além da precisão, a IA também promete ganhos operacionais importantes. Estudos conduzidos com a plataforma iDAScore mostraram que sistemas automatizados conseguem realizar avaliações embrionárias cerca de dez vezes mais rapidamente do que os métodos tradicionais, reduzindo significativamente o tempo necessário para análise dos embriões.
Modelos mais recentes também vêm sendo treinados com bancos de dados contendo centenas de milhares de embriões de dezenas de clínicas ao redor do mundo, tornando as análises mais consistentes e reduzindo a variabilidade entre avaliações. Ainda assim, a tecnologia não substitui o conhecimento, a experiência e o julgamento clínico do embriologista.
“A inteligência artificial amplia nossa capacidade de análise. Ela consegue reconhecer padrões que seriam impossíveis de processar manualmente, mas não interpreta sozinha todo o contexto clínico de cada paciente. É justamente aí que entra o embriologista. A decisão final continua sendo humana e depende da experiência da equipe laboratorial e médica. O futuro da reprodução assistida não é a substituição do profissional pela máquina, mas a combinação entre inteligência artificial e expertise humana para oferecer decisões cada vez mais precisas e individualizadas”, conclui Alegretti.

