Turismo de saúde já gera bilhões mas esqueceu a saúde mental
Por Kleber Fervença
O turismo de saúde movimenta R$ 63 bilhões por ano no Brasil, segundo dados apresentados no BAPS Summit. O número impressiona, mas esconde uma lacuna estrutural: quase a totalidade desse montante está concentrada em procedimentos médicos, cirúrgicos e odontológicos. A saúde mental — que segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) é a principal causa de absenteísmo e perda de produtividade no mundo — permanece à margem desse mercado.
O custo dessa omissão é altíssimo. Estimativas do International Labour Organization apontam que o adoecimento psíquico, incluindo burnout, ansiedade e depressão, custa ao Brasil aproximadamente R$ 300 bilhões por ano em perda de produtividade, afastamentos e rotatividade. É um custo invisível que não aparece no balanço das operadoras de saúde, mas pesa diretamente no resultado das empresas. Quando um gestor de saúde olha para o orçamento de bem-estar corporativo, raramente inclui nessa conta o impacto financeiro do sofrimento psíquico não tratado.
É nesse contexto que o turismo terapêutico emerge como uma resposta estruturada. Diferente do turismo de saúde tradicional, que desloca o paciente para um procedimento médico, o turismo terapêutico integra psicanálise, neurociência e imersão em ambientes naturais em protocolos clínicos com duração definida e equipe multidisciplinar. A premissa não é substituir o tratamento convencional, mas oferecer uma modalidade complementar para casos que não respondem à abordagem padrão — especialmente burnout crônico, luto complicado e quadros de ansiedade refratários.
A evidência científica que sustenta essa prática cresceu significativamente nos últimos dez anos. Estudos publicados em periódicos como Frontiers in Psychology e Landscape and Urban Planning demonstram que a exposição a ambientes naturais reduz marcadores neuroquímicos de estresse, regula o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e melhora indicadores de resiliência cognitiva. A neurociência afetiva oferece o substrato que faltava para tirar o turismo terapêutico do domínio do senso comum e inseri-lo no debate sobre modelos de cuidado.
O que gestores e líderes de saúde precisam saber é que o turismo terapêutico não é um produto turístico com componente de bem-estar — é uma linha de cuidado. Isso significa: protocolos clínicos estruturados, equipe composta por psicólogos, psiquiatras e terapeutas corporativos, duração definida (tipicamente entre oito e vinte e um dias), indicadores de resultado mensuráveis e acompanhamento posterior via telemedicina. A tecnologia tem papel central nessa continuidade: plataformas digitais permitem monitorar humor, sono e adesão a práticas de autocuidado por meses após o período de imersão, transformando uma experiência isolada em um processo terapêutico com dados.
Do ponto de vista de gestão, o desafio está na articulação entre três mundos que operam em silos: a rede hoteleira, os serviços de saúde mental e os programas de bem-estar corporativo. Hospitais não têm expertise em hospitalidade. Redes hoteleiras não têm licença sanitária para procedimentos terapêuticos. Operadoras não reconhecem o deslocamento terapêutico como procedimento reembolsável. A inovação não está na ideia — está no modelo de negócio que viabiliza sua execução.
Países como Japão, Alemanha e Costa Rica já estruturaram políticas públicas que reconhecem o turismo terapêutico como prática de saúde. O Japão foi o pioneiro: em 1982, o governo criou o programa Shinrin-yoku (banho de floresta) como política preventiva de saúde pública, e hoje mantém a Forest Therapy Society, que certifica trilhas terapêuticas baseadas em estudos científicos de impacto fisiológico e psicológico. A Alemanha, por sua vez, possui o sistema Kurort — reconhecido por lei desde o século XIX — que permite que médicos prescrevam estadias terapêuticas em regiões certificadas, com cobertura pelos planos de saúde do país. A Costa Rica aprovou em 2024 uma lei específica de turismo de saúde e bem-estar que cria o marco regulatório para operadores e define padrões de qualidade para programas terapêuticos.
O Brasil, apesar de ter biodiversidade e infraestrutura turística que colocam o país em posição privilegiada para essa modalidade, ainda ignora o tema. Não existe marco regulatório, não há categoria que regulamente a prática como serviço de saúde, e os planos não reembolsam. O resultado é que o turismo terapêutico opera no limbo entre o turismo de bem-estar e a medicina complementar, sem padrões de qualidade, sem indicadores comparáveis e sem acesso para a população que não pode pagar do bolso.
Superar essas barreiras exige menos defesa ideológica e mais produção de dados. A construção de um protocolo nacional de registro — com indicadores padronizados de tempo de remissão de sintomas, taxa de recaída e custo-benefício comparado ao tratamento ambulatorial — seria o passo decisivo para dar ao turismo terapêutico o estatuto de prática baseada em evidência. Sem dados, não há política pública. Sem política pública, não há escala. Sem escala, o turismo terapêutico permanece como um serviço de nicho para poucos.
O que está em jogo não é o futuro do turismo, mas o futuro do cuidado. Um sistema de saúde que movimenta R$ 63 bilhões e não contempla a maior causa de adoecimento do século XXI não está incompleto — está equivocado. A pergunta não é se o turismo terapêutico será incorporado às linhas de cuidado em saúde mental, mas quando — e quais gestores estarão à frente desse movimento.
*Kleber Fervença é neuropsicanalista, especialista em turismo terapêutico e saúde mental corporativa.

