O que a psicologia pode ensinar sobre o futuro da saúde
Inteligência artificial, telemedicina e plataformas digitais têm ocupado o centro das discussões sobre o futuro da saúde. No entanto, antes de qualquer inovação tecnológica, existe um elemento decisivo para que o cuidado aconteça: o comportamento humano. Afinal, de que adianta ampliar a oferta de serviços se as pessoas ainda enfrentam dificuldades para buscar ajuda, manter tratamentos e incorporar o cuidado à rotina?
Vejo a inteligência artificial mudando profundamente a forma como a saúde é oferecida. A velocidade para cruzar dados, identificar padrões e gerar soluções reduz a fricção que antes empurrava muita gente para longe do cuidado. Isso é real, inevitável e muito valioso. Encurta o caminho entre a dor e o cuidado.
E, surpreendentemente, mesmo com tantos avanços, acredito que o limite da tecnologia seja o humano. A IA pode organizar o acesso ao cuidado, mas não pode substituir o vínculo que faz o cuidado funcionar. E é aí que a psicologia tem algo essencial a ensinar para quem constrói inovação em saúde: a eficácia clínica nunca foi apenas sobre precisão de diagnóstico, é sobre relação, escuta e confiança sustentada ao longo do tempo.
Por que a tecnologia, sozinha, não resolve os principais desafios do setor?
A tecnologia amplia o acesso ao cuidado, mas, sozinha, não resolve os principais desafios da saúde mental. O Journal of Medical Internet Research apontou que intervenções digitais em saúde mental que combinam recursos tecnológicos com apoio humano apresentam maior benefício terapêutico do que aquelas realizadas sem esse suporte. O resultado reforça que inovação e relacionamento não são caminhos concorrentes, mas complementares.
Um estudo publicado na revista Nature Human Behaviour mostrou que modelos de inteligência artificial são capazes de produzir respostas percebidas como empáticas, mas as pessoas continuam preferindo o contato humano quando buscam apoio emocional. Os autores alertam que, embora a IA possa oferecer suporte inicial, ela não substitui a relação terapêutica construída com um profissional de saúde.
A tecnologia é aliada para diagnósticos e tratamentos de casos complexos, fortalece o engajamento e facilita a gestão e o acesso a recursos. Porém, não deve ser usada de forma indiscriminada ou em substituição ao profissional. A combinação entre inovação e presença humana é o melhor caminho para um futuro equilibrado.
O problema do acesso à saúde não se resume apenas ao custo. As barreiras ultrapassam a questão estrutural, já que a distribuição de profissionais e serviços no país é profundamente desigual. Um estudo recente do Conselho Federal de Psicologia (CFP) também apontou que a falta de comunicação e a ausência de um sistema efetivo de referência entre serviços contribuem diretamente para a fragmentação do cuidado.
Há também a barreira cognitiva, isto é, o autodiagnóstico via redes sociais. A pessoa tenta a autocura, o que leva à banalização do sofrimento sem avaliação clínica adequada, além da fragmentação e da falta de orientação na busca por profissionais qualificados. Mesmo quem tem condições financeiras se perde tentando entender qual profissional procurar, onde começar e com quem falar primeiro.
Além, é claro, das barreiras emocional e cultural. Apesar dos avanços na conversa pública sobre saúde mental, os serviços psicológicos ainda são estigmatizados. Esse quadro é particularmente contraditório entre os mais jovens: as gerações Z e Alfa se mostram, ao mesmo tempo, mais abertas ao cuidado psicológico e mais vulneráveis emocionalmente, oriundas de um contexto de hiperconectividade e instabilidade.
Uma nova mentalidade para a saúde do futuro
A mudança de mentalidade que profissionais, empresas e o próprio ecossistema da saúde mais precisam adotar nos próximos anos deveria começar por sair de uma lógica de resposta à crise para uma lógica de cuidado contínuo, tratando a colaboração entre profissionais como parte do tratamento, e não como um extra. Hoje, de modo geral, o sistema ainda é estruturado para reagir quando algo já deu errado: a pessoa procura ajuda quando o quadro já está grave, as especialidades se comunicam pouco entre si, e cada profissional trata sua parte como se fosse isolada das outras. O que precisamos entender é que saúde integral não é a soma de atendimentos separados. É a qualidade da conversa entre eles.
Essas mudanças devem ocorrer em três frentes ao mesmo tempo. Profissionais de saúde precisam abandonar a lógica de atuação isolada e passar a enxergar o encaminhamento e a troca entre especialidades como parte do cuidado. Empresas do setor, healthtechs incluídas, precisam parar de tratar engajamento e retenção como métricas suficientes de sucesso e passar a medir se a tecnologia está, de fato, aproximando as pessoas de um cuidado qualificado e sustentado ao longo do tempo. E o ecossistema como um todo, incluindo políticas públicas e formação profissional, precisa investir tanto em prevenção quanto em tratamento, já que os dados mostram que grande parte da demanda reprimida no país nasce exatamente da falta de cuidado contínuo e da fragmentação entre serviços.
Não existe inovação relevante em saúde sem essa mudança de mentalidade. Podemos ter a inteligência artificial mais avançada do mundo, mas, se ela continuar operando dentro de uma lógica fragmentada e reativa, vamos apenas automatizar o mesmo problema que já temos hoje, só que mais rápido.
*Caroline Vontobel é fundadora e CEO da Bene&Go.

