Novas terapias transformam o tratamento da Síndrome de Hunter
Nas últimas décadas, o tratamento da mucopolissacaridose tipo II (MPS II), também conhecida como síndrome de Hunter, permitiu um controle significativo das manifestações sistêmicas da doença, mas uma limitação importante ainda persiste: a incapacidade de impedir a deterioração neurológica observada na maioria dos pacientes. A recente aprovação, pelo Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos, de uma nova terapia capaz de atingir o sistema nervoso central, semelhante à já aprovada no Japão há alguns anos, começa a mudar esse cenário e sinaliza um momento importante para as doenças raras e para a medicina de precisão.
A MPS II é uma doença genética rara causada pela deficiência da enzima iduronato-sulfatase, decorrente de mutações no gene IDS, localizado no cromossomo X, razão pela qual afeta predominantemente meninos. Os sinais surgem ainda nos primeiros anos de vida e incluem alterações ósseas e articulares, problemas respiratórios e cardíacos, aumento do fígado e do baço, assim como comprometimento auditivo. O maior desafio clínico, no entanto, está no impacto neurológico, já que cerca de 70% dos casos apresentam declínio cognitivo progressivo.
Utilizada há cerca de 20 anos, a terapia de reposição enzimática marcou um ponto de virada no tratamento da MPS II, ampliando a sobrevida e melhorando a qualidade de vida dos pacientes Entretanto, a enzima administrada pela corrente sanguínea não consegue ultrapassar a barreira hematoencefálica e alcançar o cérebro, o que impede o controle do comprometimento neurológico.
Na tentativa de alterar esse panorama, pesquisas passaram a desenvolver enzimas modificadas por engenharia genética que fossem capazes de atravessar a barreira sangue-cérebro e atingir o sistema nervoso central. Trata-se de uma mudança significativa no manejo da doença, buscando a preservação da função cognitiva e a possibilidade de alterar a história natural da MPS II.
A aprovação da terapia Avlayah, desenvolvida pela empresa norte-americana Denali, reforça essa transformação. O medicamento, aprovado pelo FDA em março deste ano, já está disponível nos Estados Unidos e deve ampliar sua presença internacional nos próximos anos. Esse produto segue a linha do Izcargo, da empresa japonesa JCR, autorizado no Japão desde 2021 e, atualmente, em avaliação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), com expectativa de disponibilidade para pacientes brasileiros num futuro próximo.
Além de disponibilizar novas opções terapêuticas, esses estudos demonstram como a inovação em saúde vem acelerando a capacidade de enfrentar desafios antes considerados intransponíveis. Também evidenciam a importância da integração entre biotecnologia, pesquisa clínica global e participação de centros especializados em diferentes países, incluindo o Brasil.
O movimento observado na MPS II acompanha uma tendência mais ampla da medicina moderna: o uso de medicamentos cada vez mais direcionados, capazes de atuar em mecanismos específicos das doenças e oferecer respostas mais efetivas para condições complexas.
O próximo passo já está no horizonte. Protocolos de terapia gênica em desenvolvimento buscam introduzir no organismo uma cópia funcional do gene responsável pela produção da enzima deficiente, permitindo que o próprio corpo passe a produzir continuamente a proteína necessária. Se os resultados esperados forem confirmados, essas estratégias poderão reduzir ou até eliminar a necessidade de infusões semanais.
A aprovação dessas novas modalidades terapêuticas representa a chegada de uma nova geração de tratamentos para doenças raras, baseada em inovação, biotecnologia e medicina de precisão. Essa combinação tem potencial para enfrentar desafios que permaneceram sem resposta por décadas e transformar, de forma concreta, a perspectiva de vida dos pacientes e de suas famílias.
*Roberto Giugliani é Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Médico Geneticista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Head de Doenças Raras da Dasa Genômica e Diretor Executivo da Casa dos Raros.

