OSS no SUS: avanços promissores, mas com freio no desperdício
Por Renato Couto
Reflexão sobre as Organizações Sociais de Saúde (OSS’s) na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) exige equilíbrio entre otimismo e vigilância. Observo que esse modelo injeta lógica empresarial no serviço público: entidades sem fins lucrativos gerem unidades com flexibilidade, metas e accountability, mantendo o SUS gratuito e universal. Mas sua importância não isenta críticas — o desperdício deve ser zero, ou o modelo falha.
As OSS’s surgem como resposta à ineficiência crônica: leitos ociosos por demoras administrativas, exames pendentes e falta de atenção primária que infla emergências. Elas promovem “saúde baseada em valor”: qualidade dividida por custo, priorizando desfechos como tempo de internação otimizado e cirurgias ambulatoriais. Evidências?
Reconhecimentos como a premiação “Hospitais Líderes em Valor em Saúde” (cuja primeira edição aconteceu em 2025, com curadoria do IAG Saúde, da Organização Nacional de Acreditação – ONA e do Consórcio Internacional para Medição de Resultados em Saúde – ICHOM) destacam OSS do SUS com mortalidade abaixo do esperado e eficiência superior, prova de que gestão focada gera mais atendimentos sem mais verbas.
Seu papel é crucial: agilizam contratações, investem em protocolos e transição hospital-domicílio, evitando readmissões e na contenção de custos elevados decorrentes de falhas na segurança assistencial (R$ 10,6 bi/ano na suplementar; no SUS, o buraco é maior). É essencial transparência total e KPIs mensuráveis (mortalidade ajustada, custo por desfecho).
Um sistema de saúde mais eficiente é bom para o paciente e bom para a sociedade. O paciente sofre menos, tem menos complicações e recebe alta mais rápido e mais seguro. A fila de espera diminui porque os leitos ficam disponíveis mais rapidamente. O dinheiro economizado pode ser reinvestido para abrir novos serviços, ampliar o acesso ou melhorar a infraestrutura.
Para os gestores públicos, um contrato com uma OSS bem estruturado oferece o melhor dos dois mundos: a responsabilidade pública do SUS e a agilidade de gestão de uma organização especializada. Para a sociedade como um todo, significa um sistema de saúde mais sustentável, capaz de atender mais pessoas, com mais qualidade, sem necessariamente aumentar os gastos.
À medida que as organizações de saúde mudam seu foco de volume para valor, a redução do desperdício cria oportunidade de compartilhamento de recursos entre todos os atores do sistema.
O desafio, claro, é garantir que o modelo seja bem implementado: com contratos claros, metas mensuráveis, transparência nos resultados e fiscalização rigorosa pelo poder público. Onde isso acontece, as evidências mostram que as OSS’s são uma alternativa ao SUS e uma forma de fazer o SUS funcionar melhor.
Fazer mais com o mesmo é possível, mas só com cultura anti-desperdício. OSS’s não salvam o SUS sozinhas; fiscalizadas, elas o fortalecem. Caso contrário, perpetuam o ciclo vicioso de gastos vazios e filas eternas.
*Renato Couto é presidente do Grupo IAG Saúde.

