Por que o novo médico não será apenas médico
Por Cláudio Coelho
Durante a Hospitalar 2026, o maior evento de saúde da América Latina, participei de um debate que trouxe à tona uma reflexão que considero inevitável para quem acompanha as transformações da medicina: o novo médico não será apenas médico.
A frase pode soar provocativa à primeira vista, mas reflete uma realidade que já está em construção. A formação médica tradicional continua sendo uma das mais exigentes e complexas do ensino superior, baseada em sólidos conhecimentos científicos, clínicos e assistenciais. No entanto, as mudanças que estão ocorrendo no setor de saúde exigem competências que vão além da prática médica convencional.
A discussão surgiu a partir de uma questão que merece atenção: por que temas como empreendedorismo, inovação, gestão e tecnologia ainda ocupam um espaço tão limitado na formação dos profissionais de saúde?
Há argumentos consistentes para ambos os lados. De um lado, é inegável que os cursos de medicina já possuem uma carga acadêmica intensa, com anos dedicados à construção do conhecimento clínico. De outro, também é evidente que o ambiente em que esses profissionais atuarão nos próximos anos será radicalmente diferente daquele que existia quando os modelos curriculares atuais foram concebidos.
O médico do futuro precisará compreender não apenas doenças e tratamentos, mas também gestão, experiência do paciente, análise de dados, transformação digital e novos modelos de negócios em saúde.
A medicina está mudando. E talvez a velocidade dessa transformação seja maior do que muitos imaginam.
Nenhuma discussão sobre o futuro da saúde estaria completa sem abordar o tema que domina as conversas do setor atualmente: a inteligência artificial.
A pergunta costuma ser direta: os médicos serão substituídos pela IA?
Na minha visão, essa não é a pergunta mais relevante.
A tecnologia avança rapidamente e já demonstra resultados impressionantes em atividades específicas, como análise de exames, apoio diagnóstico, interpretação de imagens e automação de processos clínicos. Em muitos desses campos, a discussão sobre capacidade técnica já deixou de ser teórica.
As principais barreiras para uma adoção mais ampla não são necessariamente tecnológicas. Muitas vezes são regulatórias, jurídicas e culturais.
Por isso, talvez a questão mais importante seja outra: quais atividades continuarão exigindo características exclusivamente humanas?
Empatia, comunicação, julgamento ético, construção de confiança, tomada de decisão em cenários complexos, capacidade de lidar com incertezas.
Essas competências permanecem profundamente humanas e representam uma parte fundamental da prática médica.
Ao mesmo tempo, seria um erro ignorar que grande parte das atividades operacionais e cognitivas repetitivas caminha para um processo acelerado de automação. O profissional que compreender como utilizar essas ferramentas terá vantagens significativas em relação àquele que resistir às mudanças.
O médico do futuro precisará entender inteligência artificial. Precisará saber trabalhar com dados. Precisará compreender tecnologia, gestão e inovação. Precisará atuar em ecossistemas cada vez mais colaborativos e multidisciplinares.
Em outras palavras, continuará sendo médico.
Mas não apenas médico.
Acredito que esse seja um dos principais desafios, e também uma das maiores oportunidades, para a próxima geração de profissionais da saúde.
O futuro da medicina não será construído por uma disputa entre médicos e tecnologia. Será construído pela colaboração entre ambos.
Os profissionais capazes de combinar excelência clínica, competências humanas e domínio tecnológico estarão mais preparados para liderar a próxima grande transformação do setor.
A medicina continuará sendo uma das profissões mais nobres da sociedade. Mas o perfil do profissional que exercerá essa medicina já está mudando diante dos nossos olhos.
E essa mudança não pertence ao futuro.
Ela já começou!
*Cláudio Coelho é vice-presidente da Associação Brasileira de Startups de Saúde e Healthtechs (ABSS) e fundador da EUVENDO Saúde.

