A medicina da performance está criando uma linha de negócios?
Por Renato Lobo
Durante décadas, o sistema de saúde foi estruturado para responder a doenças. O modelo predominante sempre esteve baseado no diagnóstico, no tratamento e no gerenciamento de complicações. Mas esse paradigma começa a ser questionado e com ele, a lógica de receita de hospitais e clínicas.
A mudança tem raiz demográfica. Segundo pesquisa publicada no periódico The Lancet Healthy Longevity, o aumento da expectativa de vida não correspondeu, na mesma proporção, com aumento dos anos vividos com saúde plena. É o paradoxo da longevidade moderna: ganhar anos sem necessariamente ganhar qualidade.
Esse descompasso cria uma demanda por serviços que vão além do tratamento – e abre espaço para um novo segmento dentro das instituições de saúde, caminho documentado pela ciência. Uma revisão publicada no Frontiers in Medicine analisou intervenções multidomínio que combinam nutrição, atividade física, estímulo cognitivo e controle de fatores de risco dentro de programas de acompanhamento – e os resultados apontam para ganhos consistentes na manutenção da capacidade funcional ao longo do tempo. Do ponto de vista organizacional, isso se traduz em maior adesão, relacionamento longitudinal com o paciente e novas fontes de receita recorrente.
Esse movimento não passou despercebido por hospitais e clínicas, que antes concentravam sua atuação em linhas tradicionais começaram a incorporar serviços focados em avaliação metabólica, consultoria nutricional especializada, monitoramento de biomarcadores e estratégias voltadas à funcionalidade durante o envelhecimento. A criação de ambulatórios especializados e centros de medicina preventiva representa uma frente relevante: diversifica o portfólio, amplia o ticket médio e fortalece o vínculo com um perfil de cliente cada vez mais exigente e disposto a investir em saúde proativa – em um setor cada vez mais competitivo.
O desafio para os gestores está na estruturação. Expandir para esse segmento sem protocolos clínicos bem definidos, sem indicadores e sem desfechos mensuráveis é um risco reputacional e operacional. A medicina da performance só se sustenta como linha de negócio legítima quando entrega resultados demonstráveis. Sem essa base, vira promessa sem lastro em um mercado que já aprendeu a diferenciar serviço de posicionamento.
*Renato Lobo é médico formado pela Faculdade de Medicina da USP, pós-graduado em Nutrologia pela ABRAN – Associação Brasileira de Nutrologia e pós-graduado em Medicina Esportiva.

