Canabidiol e Alzheimer: o que os estudos mais recentes apontam
Por Juliana Bogado
O Alzheimer é hoje uma das doenças neurodegenerativas mais desafiadoras da medicina moderna. Sem cura definitiva e com números crescentes em todo o mundo, a condição impacta não apenas pacientes, mas famílias inteiras, levantando discussões urgentes sobre envelhecimento, qualidade de vida e novas possibilidades terapêuticas.
Dentro desse cenário, o canabidiol, conhecido como CBD, passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante nas pesquisas científicas. Derivado da Cannabis sativa e sem efeitos psicoativos, o composto vem sendo estudado por seu potencial anti-inflamatório, antioxidante e neuroprotetor, características consideradas estratégicas no enfrentamento de doenças neurodegenerativas como o Alzheimer.
O interesse da ciência no tema aumentou especialmente nos últimos anos, conforme novos estudos começaram a investigar como o CBD pode atuar diretamente nos mecanismos envolvidos na progressão da doença.
O que os estudos recentes observaram
Uma das pesquisas que mais chamou atenção recentemente foi o estudo “Cannabidiol as a multifaceted therapeutic agent: mitigating Alzheimer’s disease pathology and enhancing cognitive function”, publicado em maio de 2025 na revista científica Alzheimer’s Research & Therapy.
O estudo mostra a atuação multifatorial do canabidiol no organismo. Segundo os pesquisadores, o CBD demonstrou potencial para agir em diferentes processos associados ao Alzheimer, algo considerado relevante pela comunidade científica, já que a doença possui uma origem complexa e envolve múltiplos fatores biológicos.
Entre os principais pontos observados pelos pesquisadores está a ação do canabidiol na redução da neuroinflamação. Hoje, a inflamação crônica no cérebro é considerada um dos fatores centrais para o agravamento do Alzheimer, contribuindo para danos progressivos nas células nervosas e comprometimento cognitivo.
Esse entendimento é reforçado por uma pesquisa publicada em outubro de 2025 na revista eNeuro, da Society for Neuroscience. O estudo “Rethinking Alzheimer’s: Harnessing Cannabidiol to Modulate IDO and cGAS Pathways for Neuroinflammation Control”, de Emami Naeini et al., aprofunda esse olhar ao demonstrar que o CBD é capaz de modular vias imunológicas específicas no cérebro. Segundo os pesquisadores, a disfunção do sistema imune, e não apenas o acúmulo de proteínas amiloides, exerce papel central na progressão da doença. Os resultados indicam que o CBD pode reprogramar respostas imunes no cérebro, contribuindo para o controle da neuroinflamação de forma mais ampla do que se imaginava anteriormente.
Além disso, o estudo também aponta que o CBD pode ajudar a reduzir o estresse oxidativo, processo associado ao envelhecimento celular e à degeneração dos neurônios. O excesso de radicais livres no cérebro está diretamente ligado à progressão de doenças neurodegenerativas, incluindo o Alzheimer.
A relação entre CBD e funções cognitivas
Outro ponto importante analisado pelos pesquisadores envolve as proteínas beta-amiloide e tau, consideradas marcadores clássicos da doença. O acúmulo anormal dessas proteínas no cérebro está relacionado à formação de placas e emaranhados neurofibrilares que comprometem a comunicação entre os neurônios.
Segundo os dados apresentados, o canabidiol demonstrou potencial para modular esses mecanismos, reduzindo processos inflamatórios e neurotóxicos associados ao avanço da doença. Em alguns modelos experimentais, os pesquisadores também observaram melhora em funções cognitivas, memória e aprendizagem.
Embora os resultados sejam considerados promissores, é importante reforçar que boa parte das pesquisas ainda acontece em modelos pré-clínicos ou em estudos com grupos reduzidos de pacientes.
Nesse sentido, uma revisão sistemática com meta-análise publicada em dezembro de 2025 no International Journal of Molecular Sciences, conduzida por pesquisadores da UCL School of Pharmacy, representa um passo importante nessa direção. O trabalho, assinado por Wu, Rajiah e Ali, consolida evidências de múltiplos estudos sobre o potencial terapêutico do CBD na neuroinflamação associada ao Alzheimer, conferindo maior robustez científica ao campo e sinalizando que o acúmulo de dados aponta em uma direção promissora. Isso significa que a ciência continua avançando para compreender com mais clareza quais são os reais benefícios clínicos do CBD, além de aspectos como dose ideal, segurança, interações medicamentosas e impacto a longo prazo.
O uso do canabidiol na prática clínica
Na prática clínica, o canabidiol já vem sendo observado como um possível aliado principalmente no manejo de sintomas frequentemente associados ao Alzheimer, como agitação, alterações comportamentais, ansiedade, irritabilidade e distúrbios do sono, sempre com acompanhamento médico individualizado.
Existe hoje uma mudança importante na forma como o canabidiol passou a ser enxergado dentro da medicina.
É fundamental entender que o CBD não representa cura para o Alzheimer e não substitui tratamentos convencionais. O que existe atualmente é um campo científico em expansão, respaldado por estudos que apontam potencial terapêutico relevante e que merece atenção crescente da medicina.
O avanço das pesquisas sobre canabidiol representa a ampliação de possibilidades terapêuticas para pacientes que convivem com doenças complexas e progressivas. Informação, acompanhamento médico e ciência seguem sendo os pilares centrais dessa discussão.
*Juliana Bogado é médica especializada em Canabinologia, com pós-graduação na área e atuação focada em medicina endocanabinoide.

