Grupo Hospitalar Conceição amplia uso da agricultura familiar

Em toda primeira quarta-feira do mês, o pátio do Hospital Federal de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, ganha novos aromas, cores e histórias. Entre a rotina hospitalar de consultas e exames, a feira agroecológica instalada na unidade aproxima quem produz alimentos de quem cuida — e também de quem busca investir na própria saúde.

Produtora agroecológica em Magé, Juliana de Medeiros Diniz percorre cerca de 50 quilômetros para participar da feira. “Nós estamos aqui trabalhando para pessoas que já têm problemas de saúde. E essas situações se agravam quando elas comem comida com veneno”, afirmou. Agricultora e culinarista, ela leva à feira alimentos produzidos sem agrotóxicos, como banana-passa, bananada sem açúcar, tapioca e chocolates artesanais. “Quando a gente cuida da saúde das pessoas, está cuidando da nossa também”, resumiu.

A iniciativa é valorizada por profissionais da unidade. Chefe do serviço de oftalmologia do hospital, Beatriz de Abreu Fiuza Gomes é frequentadora da feira. “Tenho o hábito de buscar uma alimentação mais natural e faço questão de incentivar quem trabalha com isso”, contou, logo após encomendar leite e chocolate com cacau 80%. Estas interações também reforçam a relação direta entre produtores e consumidores.

Alimentação como política de saúde

A cena, que se repete mensalmente em Bonsucesso, ajuda a traduzir uma diretriz que vem ganhando cada vez mais espaço no Grupo Hospitalar Conceição (GHC): a alimentação como parte do cuidado em saúde e como estratégia do SUS para promoção da saúde e prevenção de doenças. Essa atuação se estrutura em duas frentes complementares: de um lado, o fortalecimento das feiras nas unidades hospitalares — como também no Nossa Senhora da Conceição, no Criança Conceição, no Cristo Redentor, no Femina, todos em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, além do incentivo às hortas comunitárias nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e do apoio a iniciativas no território, como a parceria com a Associação Cozinha das Pretas; de outro, a reorganização das compras institucionais de alimentos, com a ampliação da aquisição de produtos da agricultura e da pecuária familiar para abastecer os refeitórios de pacientes, trabalhadores e acompanhantes.

Como desdobramento dessa atuação, o Grupo Hospitalar Conceição ampliou a execução do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) do Governo Federal e encerrou 2025 com 31,7% de todas as compras de gêneros alimentícios provenientes da agricultura e da pecuária familiar, superando o mínimo legal de 30%. O percentual representa R$ 7,3 milhões pagos a cooperativas apenas no último ano e consolida uma iniciativa que impacta diretamente pacientes, trabalhadores e comunidades do entorno.

Construída desde 2023, a política se reflete na qualificação dos cardápios das unidades do complexo hospitalar, com o fortalecimento de receitas próprias e a retirada progressiva de embutidos e ultraprocessados — como sucos industrializados, pastas prontas, maionese industrializada, bebidas açucaradas e outros complementos — em favor de preparações mais naturais, sempre respeitando as especificidades dos diferentes tratamentos. Desde a retomada do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), 22 cooperativas passaram a fornecer produtos ao GHC, que hoje conta com 140 itens adquiridos por meio do programa, incluindo hortifruti in natura, laticínios, panificados, sucos, cereais e carnes bovina, de frango e de peixe.

O movimento garante regularidade de abastecimento, amplia o valor nutricional das refeições servidas diariamente e estimula mudanças na rotina das cozinhas hospitalares. As equipes de nutrição e cozinha passaram a desenvolver preparações próprias e cardápios para diferentes perfis — como opções vegetarianas — e ações temáticas, a exemplo do Outubro Rosa, quando foi criado um pão de beterraba especialmente para pacientes do Centro de Oncologia, unindo simbolismo, cuidado nutricional e acolhimento.

Comida saudável para todos

Para o responsável pela coordenação dessa política no GHC, Alex Borba dos Santos, chefe de Gabinete da Presidência, a iniciativa parte de uma convicção: “A alimentação é um dos principais ‘remédios’. Não faz sentido economizar no prato das pessoas”. Segundo ele, a ação exigiu mudanças profundas nos sistemas de compras, do jurídico e de logística, já que o PAA opera por chamada pública, com critérios como proximidade e número de agricultores por cooperativa. “Foi um aprendizado institucional. Ajustamos processos e hoje colhemos resultados”, afirma.

Luciana Souza, coordenadora do Serviço de Nutrição do Hospital Cristo Redentor, destaca que essa mudança reforça o papel terapêutico da comida no cuidado em saúde. “A alimentação é uma ferramenta fundamental para prevenir doenças, auxiliar no tratamento e contribuir para a recuperação dos pacientes. Quando bem orientado, o alimento atua fortalecendo o sistema imunológico e promovendo mais qualidade de vida”, explicou.

Do refeitório ao território

A política de segurança alimentar do GHC vai além das cozinhas hospitalares. Sete de 12 unidades de saúde do Grupo mantêm hortas comunitárias, cuidadas pela própria vizinhança, integradas às ações de promoção da saúde. A instituição também promove feiras agroecológicas em suas unidades. No Hospital Cristo Redentor, por exemplo, a feira passou a ocorrer semanalmente, em parceria com a Rede de Cooperativas da Agricultura Familiar e da Economia Solidária (RedeCoop), estimulando o consumo de orgânicos e produtos com menor uso de agrotóxicos.

Segundo Luciana, esses espaços cumprem um papel estratégico ao aproximar os trabalhadores de produtos mais saudáveis também fora do ambiente hospitalar. “Ao facilitar o acesso a alimentos in natura e minimamente processados, as feiras incentivam os colaboradores a levarem esses itens para casa, ampliando o consumo de frutas e verduras no ambiente familiar. Isso contribui para a formação de hábitos mais saudáveis”, destacou.

Outro eixo da política é a parceria com a Associação Cozinha das Pretas. A cooperação com o Grupo Hospitalar Conceição beneficia pacientes atendidos na Unidade de Saúde Santíssima Trindade em situação de insegurança alimentar, por meio da doação de alimentos destinados à produção de cerca de 600 refeições semanais para comunidades da zona norte de Porto Alegre.

Próximos passos

Com a meta de avançar além dos 31,7%, o GHC projeta chegar a 40% de compras da agricultura familiar e ampliar o uso de produtos orgânicos, especialmente no Centro de Oncologia. “É um processo que exige desenvolvimento dos produtores e segurança de compra. Estamos mapeando o que já é orgânico para estruturar esse salto”, explicou Santos.

Ao conectar refeitórios, feiras, hortas e parcerias comunitárias, o GHC fortalece uma visão integrada de segurança alimentar no SUS — em que comida de verdade, produzida perto de quem consome, faz parte do cuidado e da recuperação.

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