Gerenciamento de Sangue (PBM): da estimativa à precisão

Por Natalia Martinez

O sangramento durante uma cirurgia é, muitas vezes, visto como um evento inerente ao procedimento, um contratempo a ser contido. No entanto, essa percepção simplista esconde uma realidade complexa: o sangramento é um processo patológico com causas identificáveis, consequências previsíveis e um impacto mensurável nos resultados do paciente. Assim como a infecção ou a isquemia, ele exige uma avaliação estruturada e uma terapia direcionada.

Apesar dos avanços tecnológicos, a estimativa visual (ou a “olho nu”) ainda é a abordagem mais comum para avaliar a perda sanguínea intraoperatória. Contudo, essa simplicidade quando não guiada por treinamento estruturado ou uma estrutura visual definida, torna-se imprecisa. Estudos controlados, como o de Rothermel & Lipman, revelaram que as estimativas dos cirurgiões podem desviar em 52% a 85% dos volumes reais, dependendo do cenário. Essa imprecisão não é um mero detalhe; ela é um reflexo de um viés cognitivo e da complexidade do campo cirúrgico, levando a uma subestimação da perda sanguínea.

As consequências são graves: tratamentos inconsistentes, demora para controlar o sangramento e, o que é pior, transfusões de sangue que poderiam ser evitadas. Anualmente, entre 15% e 20% dos pacientes em tratamento com anticoagulantes necessitarão de cirurgia, elevando ainda mais o risco de complicações hemorrágicas intraoperatórias. A falta de diretrizes clínicas claras para otimizar a seleção de produtos auxiliares para conter o sangramento agrava esse cenário, deixando uma lacuna perigosa na prática.

O Gerenciamento do Sangue do Paciente (PBM – Patient Blood Management), uma estratégia global endossada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), precisa se tornar uma realidade consolidada em todos os hospitais. A falta de padronização na avaliação do sangramento intraoperatório é um dos obstáculos para uma implementação efetiva do PBM no mundo. Para que o PBM atinja seu potencial máximo, é crucial superar, por exemplo, o excesso de subjetividade na avaliação do sangramento.

É nesse ponto que entra a Escala de Sangramento Intraoperatório Validado (VIBe Scale). O PBM, por sua vez, é uma estrutura multidisciplinar e baseada em evidências, projetada para otimizar a hemoglobina do paciente, minimizar a perda sanguínea e acelerar a recuperação. Três tópicos fundamentais são: manter a concentração de hemoglobina, otimizar a hemostasia e minimizar a perda de sangue, e gerenciar e preservar o sangue do próprio paciente.

A VIBe Scale, desenvolvida e validada por cirurgiões, atende aos pré-requisitos da FDA para escalas de sangramento, classificando a gravidade de 0 a 4 com base na anatomia, fluxo e perda estimada por minuto. A relevância da VIBe reside em sua capacidade de transformar a visão em dados. Após treinamento com vídeos educacionais, a reprodutibilidade e repetibilidade da escala foram confirmadas, provando que os cirurgiões podem classificar de forma confiável o que veem. Um vocabulário comum, como “Sangramento Grau 3”, é infinitamente mais preciso e seguro do que a vaga expressão “sangra muito”. Essa padronização permite decisões hemostáticas estruturadas, documentação robusta para o PBM e uma avaliação mais precisa de dispositivos e tratamentos.

A precisão no gerenciamento do sangramento não é apenas uma questão técnica; é um imperativo ético, clínico e econômico. Para o paciente, significa maior segurança, menos complicações, menor risco de transfusões e uma recuperação mais rápida e eficaz. Para a equipe cirúrgica, a precisão economiza sangue e tempo. Um diagnóstico acurado impulsiona intervenções direcionadas e a linguagem compartilhada da VIBe aprimora a comunicação e a segurança na sala de cirurgia. Todos na equipe devem saber o que significa um sangramento “Grau 3”.

Em suma, se tratarmos o sangramento não apenas como um episódio a ser controlado, mas como uma doença diagnosticável, o tratamento cirúrgico do sangramento passará da reação para a precisão. A combinação de um programa de PBM robusto com ferramentas de avaliação padronizadas, como a VIBe Scale, representa um avanço fundamental. Para a segurança do paciente, para a eficiência dos nossos hospitais e para a inovação na medicina, o futuro pertence àqueles que param de adivinhar e começam a saber.


*Natalia Martinez é Diretora Associada de Medical Affairs para a área de Advanced Surgery na Baxter.

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