Quando fragmentar terapias se torna uma falha de gestão

Por Vivian Coutinho

Na área da saúde, a qualidade do cuidado está diretamente ligada à forma como os serviços são organizados. No atendimento a pessoas com autismo e outras neurodivergências de alta complexidade, essa relação é ainda mais evidente. A fragmentação do cuidado não é apenas um problema clínico — é uma falha de gestão que compromete resultados, aumenta custos e transfere riscos para famílias e profissionais.

Essas condições exigem intervenções múltiplas e simultâneas, envolvendo diferentes especialidades terapêuticas, acompanhamento médico contínuo e, muitas vezes, articulação com o ambiente educacional. Quando cada profissional atua de forma isolada, sem um plano terapêutico integrado e sem governança clara, o sistema perde eficiência. Objetivos se sobrepõem, condutas se contradizem e a evolução do paciente torna-se difícil de mensurar. Do ponto de vista operacional, trata-se de um modelo que gera desperdício de recursos e baixa previsibilidade de resultados.

A gestão integrada de terapias parte de um princípio simples, mas frequentemente negligenciado: condições complexas exigem coordenação centralizada. Isso significa estabelecer um plano terapêutico único, com metas claras, indicadores definidos e revisão periódica baseada em dados objetivos, comprovados cientificamente. Significa também criar rotinas estruturadas de comunicação entre os profissionais, garantindo que decisões clínicas não sejam tomadas de forma desconectada, mas alinhadas a um projeto terapêutico comum.

Os benefícios dessa abordagem são amplos e mensuráveis. Do ponto de vista clínico, estudos mostram avanços mais consistentes em comunicação, autonomia funcional e adaptação social quando as terapias são integradas. Na prática, a boa gestão traz benefícios claros: menos retrabalho, melhor organização dos atendimentos, maior compromisso com os planos terapêuticos e famílias mais satisfeitas, que conseguem perceber os avanços no desenvolvimento de seus familiares neurodivergentes. Em um setor pressionado por custos crescentes e escassez de profissionais especializados, esses ganhos não são marginais — são estratégicos.

No entanto, implementar a gestão integrada não é trivial. Um dos principais desafios é a mudança cultural. Profissionais formados em modelos tradicionais tendem a atuar de maneira autônoma, com pouca troca sistemática de informações. Integrar exige abrir mão de decisões isoladas em favor de acordos coletivos, o que demanda maturidade técnica, liderança clínica e clareza de papéis. Sem uma governança bem definida, a integração corre o risco de se tornar apenas um discurso, sem impacto real na prática assistencial.

Outro desafio relevante está nos sistemas de informação. A integração só é possível quando dados clínicos, evoluções terapêuticas e indicadores operacionais são compartilhados de forma estruturada. Muitas instituições ainda operam com prontuários fragmentados ou registros pouco padronizados, o que dificulta a análise de resultados e a tomada de decisão baseada em evidências. Investir em tecnologia e padronização de processos é condição básica para que a gestão integrada funcione de forma sustentável.

Há também desafios financeiros e regulatórios. Modelos de remuneração que não reconhecem o valor da coordenação do cuidado tendem a desestimular a integração. Superar essa lógica exige diálogo com todo o ecossistema das neurodivergências, incluindo poder público e reguladores, além de métricas claras que demonstrem o impacto positivo da integração na qualidade e na eficiência do cuidado.

Do ponto de vista das famílias, os benefícios da gestão integrada são igualmente relevantes. Em modelos fragmentados, pais e cuidadores assumem, informalmente, a função de gestores do tratamento, articulando agendas, transmitindo informações e mediando decisões clínicas. Isso gera sobrecarga emocional e aumenta o risco de falhas de comunicação. A gestão integrada redistribui essa responsabilidade para a instituição, oferecendo previsibilidade, clareza de objetivos e acompanhamento contínuo — fatores que impactam diretamente a adesão ao tratamento.

Experiências nacionais e internacionais mostram que serviços que adotam esse modelo apresentam menor evasão, maior engajamento das famílias e resultados mais consistentes ao longo do tempo. Esses indicadores são fundamentais para a sustentabilidade das organizações de saúde, especialmente em um campo em que a continuidade do cuidado é determinante para o sucesso terapêutico.

É preciso afirmar com clareza: a gestão integrada de terapias não é um diferencial competitivo, mas um requisito mínimo de qualidade no cuidado a pessoas com autismo e outras neurodivergências de alta complexidade. Persistir em modelos fragmentados significa aceitar resultados aquém do possível, desperdício de recursos e desgaste das equipes e das famílias.

Para gestores públicos e privados, o caminho está posto. Integrar exige investimento, liderança e decisão estratégica, mas os custos da não integração são significativamente maiores. Em um cenário de crescente demanda, complexidade assistencial e restrição de recursos, a eficiência operacional precisa caminhar junto com a qualidade clínica.

Integrar não é apenas coordenar terapias. É alinhar ciência, gestão e responsabilidade social. É reconhecer que, em saúde — especialmente em contextos de alta complexidade —, cuidar bem e gerir bem são faces da mesma decisão.


*Vivian Coutinho é diretora de Operações do PRÓXIMO DEGRAU.

Damos valor à sua privacidade

Nós e os nossos parceiros armazenamos ou acedemos a informações dos dispositivos, tais como cookies, e processamos dados pessoais, tais como identificadores exclusivos e informações padrão enviadas pelos dispositivos, para as finalidades descritas abaixo. Poderá clicar para consentir o processamento por nossa parte e pela parte dos nossos parceiros para tais finalidades. Em alternativa, poderá clicar para recusar o consentimento, ou aceder a informações mais pormenorizadas e alterar as suas preferências antes de dar consentimento. As suas preferências serão aplicadas apenas a este website.

Cookies estritamente necessários

Estes cookies são necessários para que o website funcione e não podem ser desligados nos nossos sistemas. Normalmente, eles só são configurados em resposta a ações levadas a cabo por si e que correspondem a uma solicitação de serviços, tais como definir as suas preferências de privacidade, iniciar sessão ou preencher formulários. Pode configurar o seu navegador para bloquear ou alertá-lo(a) sobre esses cookies, mas algumas partes do website não funcionarão. Estes cookies não armazenam qualquer informação pessoal identificável.

Cookies de desempenho

Estes cookies permitem-nos contar visitas e fontes de tráfego, para que possamos medir e melhorar o desempenho do nosso website. Eles ajudam-nos a saber quais são as páginas mais e menos populares e a ver como os visitantes se movimentam pelo website. Todas as informações recolhidas por estes cookies são agregadas e, por conseguinte, anónimas. Se não permitir estes cookies, não saberemos quando visitou o nosso site.

Cookies de funcionalidade

Estes cookies permitem que o site forneça uma funcionalidade e personalização melhoradas. Podem ser estabelecidos por nós ou por fornecedores externos cujos serviços adicionámos às nossas páginas. Se não permitir estes cookies algumas destas funcionalidades, ou mesmo todas, podem não atuar corretamente.

Cookies de publicidade

Estes cookies podem ser estabelecidos através do nosso site pelos nossos parceiros de publicidade. Podem ser usados por essas empresas para construir um perfil sobre os seus interesses e mostrar-lhe anúncios relevantes em outros websites. Eles não armazenam diretamente informações pessoais, mas são baseados na identificação exclusiva do seu navegador e dispositivo de internet. Se não permitir estes cookies, terá menos publicidade direcionada.

Visite as nossas páginas de Políticas de privacidade e Termos e condições.

Importante: A Medicina S/A usa cookies para personalizar conteúdo e anúncios, para melhorar sua experiência em nosso site. Ao continuar, você aceitará o uso. Veja nossa Política de Privacidade.