Do chatbot ao sistema clínico: a evolução silenciosa da IA médica

Por Ricardo Scarpari

A IA generativa já faz parte da rotina de saúde de milhões de pessoas — e isso é apenas o começo. No início de 2026, estima-se que cerca de 40 milhões de americanos usem o ChatGPT para orientação relacionada à saúde, dentro de um universo de mais de 200 milhões de usuários semanais que fazem perguntas sobre bem-estar, sintomas e tratamentos. Estudos mostram que 21,5% dos usuários já adotaram a ferramenta como fonte de informação em saúde (Online Health Information), e um em cada seis adultos nos EUA consulta chatbots de IA mensalmente para temas médicos.

Muitos recorrem à IA para entender sintomas iniciais, explorar alternativas terapêuticas ou decidir se uma consulta presencial é necessária. Ao mesmo tempo, a maioria mantém uma postura cautelosa, validando respostas com profissionais de saúde — um sinal de que utilidade e ceticismo caminham juntos.

Esse equilíbrio explica por que a saúde vem se tornando o verdadeiro teste de maturidade dos grandes modelos de linguagem. Não por ser o domínio mais glamouroso da IA, mas porque é onde o erro custa caro e a ambiguidade é a regra. Sintomas são mal descritos, o contexto costuma ser incompleto, o histórico fragmentado e quase sempre existem múltiplas hipóteses plausíveis. O avanço que estamos vendo não é simplesmente um chatbot “respondendo melhor”, mas a transição da IA de respostas superficiais para interpretação clínica assistida — com capacidade de ler exames, reconciliar histórico médico, considerar comorbidades e lidar com incerteza de forma mais responsável.

Por isso, a adoção tende a seguir um caminho previsível. A IA sai primeiro da tela em tarefas onde o risco é menor e o retorno é alto, como logística, fluxos de atendimento e triagem. Só depois começa a se aproximar de tarefas clínicas mais sensíveis. Esse avanço depende menos de “treinar mais dados” e muito mais de entender onde o modelo falha. Nos bastidores, a evolução em saúde acontece quando especialistas transformam conhecimento clínico em feedback estruturado — não em opinião solta. Isso envolve mapear tipos de erro, diferenciar o que é apenas incompleto do que é potencialmente perigoso, criar casos adversariais, calibrar rubricas e construir conjuntos de avaliação que permitam reduzir alucinações, excesso de confiança e recomendações inseguras. O objetivo final é simples de formular e difícil de executar: melhorar a orientação sem aumentar o risco.

Outro fator decisivo é a regionalização. Saúde não é universal. Protocolos variam por país, medicamentos disponíveis mudam, a epidemiologia é diferente e até a forma como as pessoas descrevem sintomas depende da cultura. O futuro aponta para modelos que deixam de operar como um “clínico genérico global” e passam a incorporar contexto local de forma robusta — algo que só é possível com feedback humano qualificado e avaliação contínua baseada em casos reais daquele recorte.

Além disso, a IA caminha rapidamente para a longitudinalidade. A pergunta isolada perde espaço para sistemas que acompanham o paciente ao longo do tempo, integrando histórico clínico, exames anteriores, sinais, comportamento e eventos de saúde. O que chama atenção não é apenas a direção dessa evolução, mas a velocidade com que ela está acontecendo. Em apenas um mês — janeiro de 2026 — uma sequência de movimentos deixou claro que a saúde deixou de ser um experimento para se tornar prioridade estratégica das grandes empresas de IA.

A OpenAI lançou o ChatGPT for Healthcare, formalizando sua entrada na área, e, em paralelo, adquiriu a Torch, uma startup de saúde com apenas um ano de existência e um time de quatro pessoas, por cerca de US$ 100 milhões, sinalizando o valor atribuído à integração longitudinal de dados clínicos. Na mesma janela, a Anthropic anunciou iniciativas próprias para healthcare, incluindo a conexão de registros médicos e resultados laboratoriais aos seus modelos. Também em janeiro, a Google lançou novos produtos voltados à saúde e, segundo informações de mercado, trabalha em soluções ainda mais robustas, com modelos já capazes de interpretar resultados laboratoriais e iniciar integrações com plataformas de medicina.

Em conjunto, esses movimentos mostram um ponto de inflexão claro: a saúde passou a ser tratada como uma vertical central, com investimentos, produtos e estratégias pensadas tanto para o consumidor final quanto para hospitais e sistemas de saúde.


*Ricardo Scarpari é cofundador da Vetto AI.

Damos valor à sua privacidade

Nós e os nossos parceiros armazenamos ou acedemos a informações dos dispositivos, tais como cookies, e processamos dados pessoais, tais como identificadores exclusivos e informações padrão enviadas pelos dispositivos, para as finalidades descritas abaixo. Poderá clicar para consentir o processamento por nossa parte e pela parte dos nossos parceiros para tais finalidades. Em alternativa, poderá clicar para recusar o consentimento, ou aceder a informações mais pormenorizadas e alterar as suas preferências antes de dar consentimento. As suas preferências serão aplicadas apenas a este website.

Cookies estritamente necessários

Estes cookies são necessários para que o website funcione e não podem ser desligados nos nossos sistemas. Normalmente, eles só são configurados em resposta a ações levadas a cabo por si e que correspondem a uma solicitação de serviços, tais como definir as suas preferências de privacidade, iniciar sessão ou preencher formulários. Pode configurar o seu navegador para bloquear ou alertá-lo(a) sobre esses cookies, mas algumas partes do website não funcionarão. Estes cookies não armazenam qualquer informação pessoal identificável.

Cookies de desempenho

Estes cookies permitem-nos contar visitas e fontes de tráfego, para que possamos medir e melhorar o desempenho do nosso website. Eles ajudam-nos a saber quais são as páginas mais e menos populares e a ver como os visitantes se movimentam pelo website. Todas as informações recolhidas por estes cookies são agregadas e, por conseguinte, anónimas. Se não permitir estes cookies, não saberemos quando visitou o nosso site.

Cookies de funcionalidade

Estes cookies permitem que o site forneça uma funcionalidade e personalização melhoradas. Podem ser estabelecidos por nós ou por fornecedores externos cujos serviços adicionámos às nossas páginas. Se não permitir estes cookies algumas destas funcionalidades, ou mesmo todas, podem não atuar corretamente.

Cookies de publicidade

Estes cookies podem ser estabelecidos através do nosso site pelos nossos parceiros de publicidade. Podem ser usados por essas empresas para construir um perfil sobre os seus interesses e mostrar-lhe anúncios relevantes em outros websites. Eles não armazenam diretamente informações pessoais, mas são baseados na identificação exclusiva do seu navegador e dispositivo de internet. Se não permitir estes cookies, terá menos publicidade direcionada.

Visite as nossas páginas de Políticas de privacidade e Termos e condições.

Importante: A Medicina S/A usa cookies para personalizar conteúdo e anúncios, para melhorar sua experiência em nosso site. Ao continuar, você aceitará o uso. Veja nossa Política de Privacidade.