A radioterapia de alta precisão no tratamento de tumores cerebrais
Por Sonmi Lee
Não é de hoje que a radioterapia ocupa um papel central no tratamento oncológico, ao lado da cirurgia e do tratamento sistêmico medicamentoso (quimioterapia, terapias-alvo e imunoterapia). A radioterapia é uma das principais ferramentas no controle e tratamento de diversos tipos de câncer, sendo fundamental tanto em tumores localizados quanto em doenças avançadas e metastáticas.
Apesar da sua importância consolidada dentro da Oncologia, a radioterapia ainda enfrenta gargalos significativos de acesso no Sistema Único de Saúde (SUS). O setor convive há anos com desafios estruturais importantes, que vão desde o acesso desigual da população, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, até a distribuição insuficiente de equipamentos pelo território nacional, além das dificuldades relacionadas à sustentabilidade financeira dos serviços.
De acordo com um estudo publicado na revista científica International Journal of Radiation Oncology, pacientes com câncer que vivem na Região Norte do Brasil precisam percorrer, em média, 442 quilômetros para conseguir realizar radioterapia pelo SUS. No extremo oposto, moradores da Região Sul percorrem cerca de 71 quilômetros. O dado evidencia como o local onde o paciente vive ainda influencia diretamente o acesso ao tratamento oncológico especializado no país.
Outro desafio é a sustentabilidade econômica do setor. A Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) alerta há anos sobre a defasagem nos modelos de remuneração da radioterapia, cenário que impacta diretamente a capacidade de investimento, manutenção tecnológica e expansão da rede assistencial. Como consequência, cria-se um ciclo que dificulta a modernização dos serviços e limita a incorporação de tecnologias mais avançadas.
Estudos recentes mostram que técnicas mais modernas vêm modificando prognóstico, controle local da doença e qualidade de vida dos pacientes. Segundo um estudo populacional publicado em 2025 na revista Frontiers in Oncology, pacientes com metástases cerebrais que receberam radioterapia apresentaram taxas de sobrevida acima de 79% após doze meses, percentual significativamente superior ao observado entre aqueles que não receberam o tratamento. Os dados reforçam que a radioterapia segue entre os principais pilares terapêuticos nesses casos.
Além da ampliação da sobrevida, os avanços tecnológicos também permitem tratamentos mais precisos, menos invasivos e com menor impacto sobre áreas saudáveis do cérebro. Técnicas como a radiocirurgia estereotáxica conseguem aplicar altas doses de radiação diretamente sobre pequenas lesões cerebrais, preservando tecidos saudáveis ao redor e reduzindo efeitos colaterais neurocognitivos historicamente associados à radioterapia convencional.
A radiocirurgia estereotáxica representa um dos maiores avanços da radioterapia moderna no tratamento intracraniano. A técnica permite tratar tumores com elevada precisão e, muitas vezes, em poucas sessões, reduzindo riscos de sequelas neurocognitivas, tempo de internação e impacto na qualidade de vida dos pacientes. Atualmente, a radiocirurgia tem papel cada vez mais relevante no controle de metástases cerebrais, inclusive em pacientes com múltiplas lesões.
No entanto, no Brasil, o acesso a essas tecnologias ainda é limitado, inclusive em grandes centros urbanos e hospitais de alta complexidade. Em muitas regiões do país, pacientes continuam enfrentando demora para iniciar o tratamento, pouco acesso a tecnologia de ponta e ainda a necessidade de longos deslocamentos.
Em doenças oncológicas, especialmente nos tumores originados no cérebro, o tempo para início do tratamento pode impactar o prognóstico, o controle da doença e a qualidade de vida. O acesso às tecnologias mais modernas e precisas na radioterapia poderia modificar significativamente os resultados clínicos desses pacientes.
Falta um olhar aprimorado do governo! O país precisa avançar em políticas públicas que garantam expansão da rede, atualização tecnológica e maior equidade no acesso ao tratamento oncológico. Sem investimentos estruturais e planejamento assistencial de longo prazo, milhares de pacientes continuarão enfrentando barreiras no tratamento.
*Sonmi Lee é médica radio-oncologista especialista em tumores cerebrais, membro da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) e titular no Real Hospital Português.

