Brasil registrou quase 80 mil procedimentos de congelamento de óvulos nos últimos seis anos
A maternidade tem acontecido cada vez mais tarde no Brasil. O país presenciou, na última década, o aumento da idade média das brasileiras ao terem o primeiro filho, refletindo mudanças sociais, profissionais, amorosas e econômicas.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o total de mulheres com 30 anos ou mais que se tornam mães no Brasil atingiu a média de 39% em 2022. De 22% nos anos 2000, as mulheres de 30 a 39 anos mães passaram a representar 26,1% em 2010 e 34,5% em 2022. Já as mães com 40 ou mais, subiram de 2%, em 2000, para 4,2%, em 2022.
Nesse cenário, o congelamento de óvulos passou a ser uma importante ferramenta do planejamento reprodutivo de milhares de mulheres. Dados recentes do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio) confirmam essa mudança de comportamento: entre 2020 e 2025, os procedimentos no país saltaram de 7.872 para 18.631 — um aumento expressivo de 136,7%, com uma taxa média de crescimento de 18,8% ao ano. Somando todos os procedimentos feitos nos últimos seis anos, o país atingiu a marca de 79.360 ciclos de coletas de óvulos destinadas ao congelamento.
Para a médica ginecologista e especialista em reprodução humana da Associação Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), Mylena Naves Rocha, a preservação da fertilidade tem registrado crescimento contínuo no país nos últimos anos, tanto pelo avanço das técnicas de vitrificação, quanto pelo adiamento da maternidade.
“O principal fator associado ao aumento dessa procura é o adiamento da maternidade, motivado por questões profissionais, acadêmicas, financeiras e pessoais. À medida que a mulher posterga o projeto reprodutivo, cresce o interesse por estratégias de preservação da fertilidade, como o congelamento de óvulos.”, afirma.

O aumento da procura também reflete a maior conscientização das mulheres sobre a fertilidade. Esse avanço é resultado do trabalho de educação realizado por especialistas em reprodução humana, sociedades científicas e ginecologistas, que têm ampliado o acesso à informação sobre planejamento reprodutivo e avaliação da reserva ovariana”, explica a especialista.
E, embora não exista uma idade limite para se congelar os óvulos, a idade do congelamento dos óvulos é um dos fatores mais importantes para um melhor prognóstico reprodutivo. Isso acontece pois o potencial reprodutivo feminino sofre uma redução mais acentuada após os 35 anos, tornando a preservação da fertilidade uma estratégia importante para mulheres que ainda não pretendem engravidar.
“O cenário ideal é que a mulher realize pelo menos um ciclo de congelamento antes dos 35 anos, sendo em torno dos 30 anos a idade, considerado uma idade favorável. Uma vez que a grande maioria das mulheres nessa faixa etária ainda tem uma reserva ovariana satisfatória, com melhor qualidade e quantidade de óvulos. Mulheres acima dos 35 ou até por volta dos 40 anos ainda podem realizar o procedimento, mas precisam ser orientadas sobre suas reais chances e possível necessidade de mais de uma coleta para obter um número adequado de óvulos.”, explica Mylena Naves Rocha.
Além das mulheres que buscam o procedimento por uma questão de planejamento de vida, existem condições de saúde que tornam o procedimento uma recomendação clínica, segundo a especialista. Dentre elas se destaca a falência ovariana prematura, diagnosticada em mulheres com menos de 40 anos que apresentam irregularidade menstrual, alterações hormonais (hormônio anti-mulleriano e/ou FSH) e sintomas da pré menopausa; nesse caso a paciente tem urgência em congelar seus óvulos caso deseje ter filhos com seus próprios óvulos.
Outra indicação clássica é o diagnóstico oncológico em mulheres em idade reprodutiva. Antes do início da quimioterapia ou radioterapia, tratamentos potencialmente gonadotóxicos, essas pacientes devem ser avaliadas por um especialista em reprodução humana para discutir estratégias de preservação da fertilidade, incluindo o congelamento de óvulos quando indicado.
Entre as condições clínicas que podem comprometer a fertilidade, destaca-se a endometriose, especialmente quando há acometimento ovariano por endometriomas, condição que pode levar à redução da reserva ovariana.
As chances de sucesso do tratamento com óvulos previamente congelados dependem de um conjunto de fatores. Entre os principais estão a idade da paciente e a quantidade de óvulos no momento do congelamento, a qualidade do sêmen no momento da fertilização e as futuras condições do útero. “Quanto mais jovem a paciente no momento do congelamento e maior o número de óvulos preservados, maiores são as chances futuras de obtenção de embriões viáveis e de gravidez”, resume a médica.
Os avanços da vitrificação transformaram a preservação da fertilidade, tornando o armazenamento de óvulos uma estratégia segura e eficaz. “Os óvulos vitrificados podem permanecer armazenados por tempo indeterminado, sem evidências de perda da qualidade relacionada ao período de armazenamento. O potencial reprodutivo permanece o mesmo observado no momento do congelamento.”, diz.
Como recomendação para aquelas mulheres que desejam engravidar, mas que ainda não se sentem prontas ou não estão no momento ideal em relação à vida profissional, a especialista em reprodução assistida da SBRA deixa um recado.
“Toda mulher que pretende adiar a maternidade deve receber orientação sobre sua fertilidade e conhecer a possibilidade do congelamento de óvulos. A decisão deve ser individualizada, mas quanto mais precoce a preservação da fertilidade, maiores tendem a ser as chances de sucesso reprodutivo no futuro.”, enfatiza Mylena Naves Rocha.

