Terapia-alvo chega a 22% dos pacientes do SUS, contra 54% na saúde suplementar
Pacientes com um subtipo de câncer de pulmão que pode ser tratado com medicamentos desenvolvidos para bloquear alterações genéticas específicas do tumor ainda enfrentam desigualdades importantes de acesso no Brasil. Estudo do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), publicado em 24 de junho na revista científica JCO Global Oncology, mostra que apenas 22,2% dos pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) receberam terapia-alvo como primeiro tratamento, percentual que chega a 53,9% na saúde suplementar. A diferença também apareceu nas chances de sobrevivência. Três anos após o diagnóstico, 61,4% dos pacientes atendidos pelo SUS estavam vivos, contra 87,2% daqueles tratados na saúde suplementar.
Uma segunda pesquisa do grupo, publicada no mesmo periódico, demonstra que essas diferenças começam ainda antes do tratamento. Os dados mostram que apenas 43,9% dos oncologistas que atuam no SUS relataram ter acesso regular ao exame necessário para identificar a alteração no gene ALK, enquanto na saúde suplementar esse percentual alcança 93,9%.
O primeiro estudo acompanhou pacientes atendidos em 12 centros oncológicos brasileiros para investigar como as diferenças no acesso ao diagnóstico e ao tratamento influenciam a evolução de um subtipo de câncer de pulmão associado a uma alteração no gene ALK. Encontrada em cerca de 5% dos casos de câncer de pulmão de não pequenas células no país, essa alteração faz com que o tumor cresça de forma descontrolada, mas também abre caminho para um tratamento mais direcionado. Quando o exame molecular identifica o ALK, o paciente pode receber terapias-alvo, medicamentos desenvolvidos para bloquear essa alteração específica. A pesquisa analisou dados de 101 pacientes diagnosticados entre 2015 e 2020.

Esses medicamentos são conhecidos como terapias-alvo. Ao contrário da quimioterapia, que atua sobre células que se multiplicam rapidamente e podem atingir tecidos saudáveis, as terapias-alvo agem diretamente sobre alterações moleculares responsáveis pelo desenvolvimento do câncer. Com isso, costumam controlar a doença por mais tempo, retardar sua progressão e provocar menos efeitos adversos. Por esse motivo, hoje são consideradas o tratamento preferencial para pacientes com câncer de pulmão que apresentam alteração no gene ALK.
Segundo a oncologista clínica Samira Mascarenhas, presidente eleita do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) e principal autora do estudo, os resultados evidenciam o descompasso entre os avanços da medicina de precisão e o acesso efetivo dos pacientes brasileiros aos tratamentos mais modernos.
“As terapias-alvo são hoje o tratamento preferencial para pacientes com câncer de pulmão que apresentam alteração em ALK, porque controlam melhor a doença do que a quimioterapia. Quando a maioria dos pacientes do SUS ainda não consegue receber esse tratamento, fica evidente que a medicina de precisão ainda não chegou de forma igual para todos”, afirma.
Atrasos também comprometem o tratamento
O estudo também mostrou que a desigualdade não se limita ao acesso aos medicamentos. Pacientes atendidos pelo SUS demoraram mais para percorrer diferentes etapas da jornada até o tratamento. Do aparecimento dos primeiros sintomas até a confirmação do diagnóstico, o tempo foi de 3,6 meses na rede pública, mais que o dobro do observado na saúde suplementar, onde esse intervalo foi de 1,6 mês. Os pacientes do SUS também esperaram mais pelo resultado do exame que identifica a alteração em ALK e pelo início do tratamento.
Samira Mascarenhas alerta que esses atrasos podem comprometer o tratamento antes mesmo de o paciente ter acesso ao medicamento mais indicado. “Em câncer de pulmão avançado, o tempo importa. A doença pode progredir, o paciente pode piorar clinicamente, desenvolver metástases sintomáticas ou até perder a oportunidade de receber tratamentos posteriores”, afirma.
As metástases são focos do câncer que se espalham para outros órgãos do corpo. Quando se tornam sintomáticas, podem provocar manifestações como falta de ar, dor intensa, convulsões, alterações neurológicas ou fraturas, dependendo do local atingido, além de limitar as opções de tratamento.
A pesquisa também revelou que a quimioterapia ainda é a principal opção para a maioria dos pacientes atendidos no SUS, mesmo quando há um tratamento mais eficaz disponível para tumores com alteração em ALK. Enquanto 77,8% dos pacientes da rede pública iniciaram o tratamento com quimioterapia, esse percentual foi de 46,1% na saúde suplementar. Em sentido oposto, pouco mais da metade dos pacientes da rede privada recebeu uma terapia-alvo logo no início do tratamento, proporção que caiu para pouco mais de um em cada cinco pacientes no SUS.
Embora parte dos pacientes consiga receber um inibidor de ALK em fases posteriores da doença, isso nem sempre compensa o atraso no início do tratamento mais adequado. “Parte do benefício pode ser recuperada, mas nem sempre totalmente. O tratamento-alvo tende a trazer maior benefício quando usado no momento certo. Alguns pacientes que começam com quimioterapia podem piorar clinicamente ou perder a oportunidade de receber a terapia-alvo depois”, explica Samira Mascarenhas, coautora do estudo.
Exames moleculares e terapias-alvo continuam pouco acessíveis no SUS
Os resultados observados entre os pacientes encontram respaldo em outra pesquisa publicada pelo Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) no JCO Global Oncology, desta vez baseada na prática clínica de 156 oncologistas brasileiros entrevistados entre outubro de 2024 e março de 2025. O levantamento identificou que as dificuldades para incorporar a medicina de precisão começam ainda antes do tratamento e persistem ao longo de toda a jornada assistencial.
Menos da metade dos oncologistas que atuam no SUS (43,9%) informou ter acesso regular ao teste necessário para identificar a alteração no gene ALK, percentual que chega a 93,9% entre os profissionais da saúde suplementar. Na avaliação dos pesquisadores, essa diferença limita a identificação de pacientes elegíveis às terapias-alvo e retarda o início do tratamento mais adequado.
A principal barreira apontada pelos especialistas foi a ausência de cobertura ou de mecanismos de financiamento para os testes moleculares, mencionada por 58,3% dos participantes. Também foram relatadas dificuldades relacionadas à quantidade insuficiente de tecido tumoral para análise molecular (40,4%) e à necessidade de iniciar rapidamente o tratamento (36,5%). Segundo os autores, a infraestrutura para diagnóstico molecular permanece concentrada principalmente em centros privados e em regiões mais desenvolvidas do país, enquanto muitos serviços públicos ainda dependem de programas patrocinados pela indústria para viabilizar a realização dos exames.
As limitações observadas no diagnóstico se refletem também no tratamento. Entre os oncologistas que atuam no SUS, 94,4% relataram que a quimioterapia continua sendo a principal opção de primeira linha para pacientes com alteração em ALK. O acesso às terapias-alvo permanece restrito: apenas 10,3% informaram disponibilidade de crizotinibe, enquanto alectinibe e lorlatinibe foram citados por somente 1,9% dos entrevistados. Nenhum participante relatou acesso ao brigatinibe como tratamento inicial no período avaliado.
Na saúde suplementar, o cenário foi substancialmente diferente. O alectinibe estava disponível para 80,3% dos oncologistas, o lorlatinibe para 64,6%, o crizotinibe para 61,9% e o brigatinibe para 57,1%. Mesmo após a progressão da doença, a disponibilidade dessas terapias permaneceu elevada no setor privado, enquanto, no SUS, 95,3% dos especialistas continuaram apontando a quimioterapia como principal alternativa terapêutica. “Mesmo quando conseguimos identificar a alteração molecular, frequentemente não há acesso aos tratamentos recomendados pelas diretrizes. Isso limita o potencial da oncologia de precisão e impede que muitos pacientes recebam terapias associadas a melhores resultados clínicos”, afirma Vladmir Cordeiro de Lima, oncologista clínico, presidente do GBOT e coautor.
Os pesquisadores ressaltam que as dificuldades não se restringem aos tumores com alteração em ALK. Barreiras semelhantes também afetam o acesso a testes moleculares e terapias-alvo para outros biomarcadores utilizados na prática clínica, como EGFR e ROS1. Embora o crizotinibe tenha sido incorporado ao SUS em 2022 e o brigatinibe em 2025, a implementação dessas tecnologias ainda ocorre de forma desigual entre os serviços públicos.
“Nossos resultados mostram um retrato da prática clínica brasileira e reforçam a necessidade de estratégias nacionais para ampliar o acesso aos testes moleculares, garantir a disponibilidade das terapias recomendadas pelas diretrizes e reduzir as desigualdades observadas entre os diferentes sistemas de saúde”, conclui Samira Mascarenhas.
Em conjunto, os dois estudos oferecem um panorama abrangente das desigualdades no tratamento do câncer de pulmão com alteração no gene ALK no Brasil. Enquanto o primeiro demonstra que pacientes atendidos pelo SUS recebem menos terapias-alvo, enfrentam maiores atrasos até o diagnóstico e o tratamento e apresentam menor sobrevida, o segundo identifica os principais obstáculos para a implementação da medicina de precisão, desde o acesso aos testes moleculares até a disponibilidade dos medicamentos. Na avaliação dos pesquisadores, reduzir essas barreiras é fundamental para que os avanços obtidos nas últimas décadas se traduzam em benefícios concretos para todos os pacientes, independentemente do sistema de saúde em que são atendidos.
O estudo Treatment of ALK+ Non–Small Cell Lung Cancer in the Brazilian Public and Private Health Care Systems: A Tale of Inequalities (LACOG/GBOT 1918) foi desenvolvido por Samira Mascarenhas, Ana C. Z. Gelatti, Tatiane Montella, Marcelo Corassa, William N. William Jr., Rosely Yamamura, Clarissa Baldotto, Eduardo H. Cronemberger, Aknar F. C. Calabrich, Giuliano S. Borges, Carlos H. A. Teixeira, Danielli Matias, Aline F. Fares, Cristina D. A. T. Sampaio, Antonia Angeli Gazola, Francisco de C. Zuanazzi, Paulo A. C. Schulze, Luísa M. T. Franche, Rafaela G. de Jesus, Juliana Giacomazzi, Matheus S. Rocha, Gustavo Gössling e Carlos G. Ferreira. Já o estudo Current Access to Anaplastic Lymphoma Kinase Testing and Targeted Therapies for Non-Small Cell Lung Cancer in Brazil: Results From a Cross-Sectional Survey (LACOG 1224-GBOT) teve como coautores, além de Vladmir Cordeiro de Lima e Samira Mascarenhas, os pesquisadores Clarissa Baldotto, Ana C. Z. Gelatti, Carlos H. A. Teixeira, Tatiana F. Rebelatto, Carlos A. Monteiro e Rafaela G. de Jesus.
Muito além do ALK
O câncer de pulmão não é uma única doença e diferentes tipos exigem acesso ao diagnóstico molecular. Hoje se sabe que tumores com aparência semelhante ao microscópio podem apresentar características genéticas distintas, capazes de influenciar o comportamento da doença e, principalmente, a escolha do tratamento. Alterações em genes como ALK, EGFR, ROS1, BRAF, MET, RET, KRAS e NTRK, entre outros, podem tornar determinados pacientes candidatos a terapias-alvo, medicamentos desenvolvidos para bloquear mecanismos específicos do tumor e que, em muitos casos, proporcionam maior controle da doença e menos efeitos adversos do que a quimioterapia convencional.
Na prática, cada uma dessas alterações pode indicar uma estratégia terapêutica diferente. Pacientes com mutações em EGFR, por exemplo, podem se beneficiar de medicamentos como o osimertinibe; tumores com rearranjos em ALK dispõem de opções como alectinibe, brigatinibe e lorlatinibe; alterações em ROS1 podem ser tratadas com crizotinibe ou entrectinibe; já alterações em BRAF, MET, RET, KRAS e NTRK também contam com terapias direcionadas para grupos selecionados de pacientes. Nesse cenário, os testes moleculares tornaram-se um dos pilares da oncologia de precisão, pois permitem identificar o perfil genético do tumor e selecionar o tratamento mais adequado para cada paciente.
Embora os estudos tenham analisado especificamente os desafios relacionados ao ALK, os autores destacam que as barreiras de acesso aos testes moleculares e às terapias-alvo também afetam pacientes com outras alterações genéticas, como EGFR e ROS1, limitando a incorporação da medicina de precisão na prática clínica brasileira.

