Dia do Oncologista: especialistas são cada vez mais estratégicos

Por Leandro Veloso Maia Lemos

No dia 9 de julho é celebrado o Dia do Oncologista, uma data que convida à reflexão sobre um dos maiores desafios da saúde contemporânea. O envelhecimento da população, o aumento dos casos de câncer e a evolução constante dos tratamentos têm ampliado a importância desses especialistas dentro do sistema de saúde. Em uma sociedade que vive mais e convive com uma incidência crescente da doença, o papel do oncologista se torna cada vez mais relevante na condução de um cuidado que exige conhecimento técnico, atualização constante e uma visão integral do paciente.

O aumento da expectativa de vida é uma conquista da medicina e da sociedade, mas também traz novas demandas para os sistemas de saúde. Entre elas está o câncer, cuja incidência tende a crescer em populações mais longevas. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), cerca de 700 mil novos casos são diagnosticados anualmente no Brasil.

O desafio, porém, não está apenas no volume de diagnósticos. O termo câncer engloba mais de 200 doenças diferentes, com características biológicas e abordagens terapêuticas próprias. Cada paciente apresenta necessidades específicas, tornando a tomada de decisão clínica cada vez mais especializada. Em outras palavras, o avanço da ciência ampliou as possibilidades de tratamento, mas também tornou mais complexas as escolhas médicas.

Em todo o país, há 4.870 oncologistas clínicos, conforme levantamento da Associação Médica Brasileira (AMB), responsáveis por conduzir o cuidado dos pacientes em uma das áreas mais complexas da medicina. O trabalho desses especialistas vai muito além da definição do tratamento. O acompanhamento frequentemente se estende por anos, exigindo monitoramento contínuo, reavaliações periódicas e decisões individualizadas. Ao longo dessa trajetória, o oncologista acompanha não apenas a evolução da doença, mas também as dúvidas, expectativas e desafios enfrentados pelos pacientes e suas famílias.

A formação de um oncologista exige mais de uma década de preparação, incluindo graduação em medicina, residência em clínica médica e especialização na área. Mesmo após esse período, a atualização profissional é permanente. Poucas especialidades passaram por transformações tão profundas nas últimas décadas quanto a oncologia. Se antes os tratamentos eram definidos principalmente pelo local de origem do tumor, hoje alterações genéticas, biomarcadores e características moleculares influenciam diretamente as escolhas terapêuticas.

Avanços como a imunoterapia e as terapias alvo ampliaram significativamente as possibilidades de tratamento e mudaram o prognóstico de muitos pacientes. Para o oncologista, isso significa interpretar um volume crescente de informações científicas e transformar conhecimento em decisões adequadas à realidade de cada pessoa.

No Brasil, ainda persistem barreiras importantes ao acesso ao cuidado oncológico. Embora o país disponha de centros de excelência reconhecidos internacionalmente, uma parcela significativa dos pacientes enfrenta demora para realizar exames especializados e iniciar o tratamento. De acordo com levantamento do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), usuários do Sistema Único de Saúde aguardam, em média, 50 dias para a confirmação do diagnóstico e 75 dias para o início da terapia. Esses números ajudam a dimensionar um problema relevante, mas não revelam toda a jornada do paciente. Os indicadores oficiais monitoram o período entre o diagnóstico confirmado e o primeiro tratamento, sem considerar o intervalo que antecede essa etapa, marcado por consultas, exames, biópsias e encaminhamentos necessários para esclarecer a suspeita clínica. Em muitos casos, é justamente nesse percurso que ocorrem atrasos capazes de comprometer a identificação precoce da doença e impactar os resultados do tratamento. Em oncologia, tempo não é apenas um indicador assistencial, mas um fator diretamente associado às chances de controle da doença e à qualidade de vida dos pacientes.

O Dia do Oncologista é uma oportunidade para reconhecer a relevância desses especialistas em um momento de profundas transformações na medicina. Em uma sociedade que envelhece e conviverá cada vez mais com o câncer, o futuro da oncologia não será definido apenas pelos avanços da ciência, mas também pelos profissionais capazes de interpretar evidências, conduzir decisões complexas e transformar conhecimento em cuidado. É essa combinação entre ciência, experiência e visão humana que torna o oncologista um profissional cada vez mais estratégico para a saúde brasileira.


*Leandro Veloso Maia Lemos é oncologista e diretor médico da Croma Oncologia.

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