Bundled payments: o modelo que a oncologia pública ainda não adotou

Por Humberto Tindó

Há uma contradição estrutural no coração do financiamento oncológico público brasileiro: o sistema paga por fragmentos de cuidado enquanto o câncer exige uma resposta integrada. Consulta aqui, exame ali, quimioterapia acolá, cada etapa remunerada isoladamente, como se o paciente fosse uma sequência de procedimentos e não uma pessoa atravessando uma das experiências mais difíceis da vida. Essa lógica fragmentada não é apenas ineficiente. Ela é cara, desumanizante.

O modelo alternativo tem nome e implementações ao redor do mundo: são os “bundled payments” ou pagamento por pacote de cuidado. Em vez de remunerar cada procedimento isoladamente, o financiador paga um valor único pela jornada do paciente, do diagnóstico ao acompanhamento pós-tratamento. O prestador recebe por resultado, não por volume. O incentivo deixa de ser “fazer mais” e passa a ser “cuidar melhor”.

A pergunta inevitável é se isso funciona e a evidência precisa ser lida com honestidade, porque tem duas camadas. A primeira é sobre coordenação do cuidado, e aí o sinal é forte. Na Kaiser Permanent Northern California, a implementação do modelo 4R de cuidado em equipe reorganizou 40 etapas do processo oncológico e reduziu em 11 dias o tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento em câncer de pulmão. Onze dias que, em Oncologia, não são detalhes: são a diferença entre estágios da doença, entre opções terapêuticas e, muitas vezes, entre prognósticos. A segunda camada é sobre o modelo de pagamento em si e aí a evidência é promissora, porém ainda mista. O Oncology Care Model do Medicare, maior experimento de pagamento por episódio em Oncologia, melhorou indicadores de qualidade, mas não gerou economia líquida para o sistema. Pilotos menores, por outro lado, registraram redução de custos e de internações.

O que essas duas camadas dizem juntas é o ponto central: a coordenação melhora desfechos, isso está demonstrado. E o “bundled payment” é o instrumento financeiro desenhado para incentivar exatamente essa coordenação, premiando quem organiza a jornada em vez de quem multiplica procedimentos. A lição internacional não é que o modelo é mágico e sim que o resultado depende do desenho. É um argumento a favor de começar com cautela, não contra começar.

Vale o contraponto: nem sistemas universais sólidos escapam da pressão. O NHS britânico, referência em universalidade e organizado sob orçamento global, convive com filas crescentes e déficit de oncologistas. Nenhum modelo de financiamento, isolado, resolve a conta sozinho. O ganho vem de organizar o cuidado em torno da jornada do paciente e o modelo de pagamento é a alavanca para isso.

No Brasil, a Oncologia pública opera sob pressão dupla: os custos crescem com a incorporação tecnológica, os diagnósticos chegam tarde e a tabela de remuneração do SUS não acompanha a realidade da alta complexidade. O resultado é um sistema que, na prática, onera quem deveria financiar e subfinancia quem deveria cuidar. Não é má-fé de nenhuma peça do sistema. É um problema de arquitetura.

“Bundled payments” desafiam exatamente essa arquitetura. Ao remunerar o ciclo completo do tratamento, da primeira consulta ao acompanhamento pós-cirúrgico, o modelo cria previsibilidade financeira para os prestadores e incentivo à eficiência para o sistema. Redes regionais de Oncologia poderiam integrar hospitais de referência a unidades básicas e centros de diagnóstico, eliminando redundâncias e acelerando o início do tratamento. O pagamento por pacote estimula a coordenação que o pagamento por procedimento sistematicamente desincentiva.

Há objeções legítimas. “Bundled payments” exigem capacidade de gestão sofisticada, sistemas de informação integrados e definição precisa do que constitui cada pacote. Num sistema federalizado como o SUS, a implementação uniforme é um desafio real. Mas nenhuma dessas dificuldades é intransponível e o histórico internacional mostra que o desenho cuidadoso é justamente o que separa os pilotos que funcionam dos que não funcionam. A pergunta relevante não é se o modelo é perfeito. É se é melhor do que o que temos.

Um projeto-piloto seria o passo mais adequado. O caminho: selecionar patologias de alta prevalência e custo bem definido, como câncer de mama, próstata e cólon, estabelecer pacotes remunerados por ciclo completo e monitorar desfechos clínicos e eficiência operacional. Os resultados orientarão a escala. O risco de tentar é gerenciável. O risco de não tentar é perpetuar um modelo que já demonstrou seus limites.

O SUS é uma das maiores conquistas civilizatórias do Brasil. Conquistas não são estáticas: evoluem ou regridem. A Oncologia pública brasileira chegou ao ponto em que evoluir é condição de sobrevivência, não só das instituições que a sustentam, mas dos pacientes que dela dependem. “Bundled payments” não são panaceia. São uma resposta estruturada a um problema estrutural. E o Brasil já esperou tempo demais para começar essa conversa.


*Humberto Tindó é diretor técnico do Hospital Mário Kroeff.

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