Os R$ 5,8 bilhões que a saúde perde sem perceber – como evitar

Por Gilson França

A operação de uma instituição de saúde envolve muito mais do que aquilo que o paciente percebe. Por trás de cada atendimento existe uma complexa estrutura formada por processos, tecnologias, sistemas e profissionais responsáveis por garantir o funcionamento eficiente de hospitais, clínicas e operadoras.

Quando uma ou mais dessas engrenagens falham, os impactos podem comprometer diretamente a sustentabilidade das organizações. E poucas áreas sentem esses efeitos de forma tão imediata quanto o setor financeiro.

Atualmente, o Brasil conta com mais de 270 mil estabelecimentos de saúde em atividade, de acordo com o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). Trata-se de uma rede ampla, diversificada e de difícil coordenação. Dentro desse universo, a saúde suplementar, composta por hospitais, clínicas e operadoras privadas, representa cerca de 60% das estruturas existentes. Embora movimente bilhões de reais todos os anos, o segmento convive com fragilidades administrativas que se acumulam silenciosamente ao longo do tempo.

Uma das consequências mais relevantes dessas fragilidades são as chamadas glosas hospitalares. Ocorrem quando procedimentos realizados durante a jornada do paciente apresentam inconsistências na documentação ou no faturamento e, por isso, são recusados pelas operadoras de saúde. Falhas de elegibilidade, ausência de autorizações, erros de preenchimento ou divergências cadastrais estão entre os principais motivos dessas recusas.

Embora muitas dessas ocorrências pareçam pontuais, seu impacto financeiro é expressivo quando analisado em larga escala. Segundo dados da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), as perdas decorrentes de glosas hospitalares alcançaram cerca de R$ 5,8 bilhões em um único ano.

No entanto, o prejuízo financeiro representa apenas uma parte do problema. As glosas são, na prática, um sintoma de um sistema operacional altamente complexo que ainda enfrenta dificuldades para garantir controle, integração e rastreabilidade em todas as etapas da cadeia assistencial e administrativa.

Durante anos, a resposta das organizações de saúde para esse desafio foi ampliar equipes, investir em infraestrutura e treinamentos, revisar e ajustar processos internos. Essas medidas produzem resultados importantes, mas frequentemente encontram limitações diante da crescente complexidade do setor, das mudanças regulatórias e do volume cada vez maior de informações que precisam ser gerenciadas.

Nesse contexto, o backoffice passa a ocupar uma posição estratégica. É ele que sustenta a previsibilidade operacional e financeira das instituições, garantindo que os processos ocorram de forma integrada e consistente, definindo, assim, o ritmo e a previsibilidade da operação.

As perspectivas para os próximos anos reforçam essa tendência. De acordo com a consultoria Grand View Research, o mercado brasileiro de automação médica poderá atingir US$ 2,11 bilhões até 2030. O crescimento reflete uma necessidade prática das organizações: reduzir retrabalho, aumentar a eficiência operacional e tornar os fluxos financeiros mais previsíveis.

Os benefícios já podem ser observados na rotina de muitas instituições. Processos de faturamento que antes demandavam dias para serem concluídos passam a ocorrer em períodos significativamente menores quando há automação dessas operações.

O ganho, porém, não está apenas na velocidade. A principal transformação ocorre na qualidade da informação. Quando os dados são obtidos corretamente desde o início da jornada do paciente, o risco de glosas diminui consideravelmente. Da mesma forma, processos rastreáveis permitem que a gestão deixe de atuar de forma reativa e passe a identificar inconsistências antes que elas gerem prejuízos.

Essa mudança também altera a lógica de gestão das organizações. Em vez de concentrar esforços na contestação de glosas, revisão de contas e correção de falhas já ocorridas, hospitais e operadoras passam a atuar preventivamente, monitorando todo o fluxo desde o cadastro inicial do paciente até o fechamento da conta médica e o envio às operadoras de saúde. O objetivo é reduzir a incidência de erros e fortalecer a eficiência operacional.

O tema tem ganhado relevância nas discussões do setor. Em eventos recentes, como a Convenção Técnica Unimed 2026, ficou evidente a crescente necessidade de automação de processos, impulsionada pela integração de sistemas, interoperabilidade e inteligência artificial como elementos centrais da transformação digital da saúde.

Mais do que uma tendência tecnológica, trata-se de uma mudança estrutural. A eficiência na saúde está diretamente relacionada à capacidade de coordenar uma cadeia complexa de decisões assistenciais, operacionais e financeiras. Ela se materializa quando hospitais e operadoras conseguem comprar melhor, gerir estoques com inteligência, negociar de forma estratégica, integrar processos e monitorar indicadores confiáveis para apoiar decisões críticas.

Essa estrutura é complexa, interdependente e altamente sensível. Pequenas falhas operacionais podem gerar perdas milionárias e comprometer a sustentabilidade de todo o sistema. Ao mesmo tempo, o setor já dispõe de tecnologias capazes de automatizar processos, reduzir gargalos históricos e aumentar significativamente a eficiência da gestão.

O desafio agora não está apenas em desenvolver essas soluções, mas em ampliar seu conhecimento e sua adoção. Em um cenário de crescente pressão por resultados, prevenir perdas pode ser tão importante quanto ampliar receitas — e a transformação começa justamente nos processos que muitas vezes passam despercebidos.


*Gilson França é CEO da Weega Technologies.

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