Por que o Brasil precisa discutir a prevenção do Alzheimer
Por Giulia Campanha de Freitas Lino
O Alzheimer deixou de ser apenas uma preocupação médica individual para se tornar um dos maiores desafios de saúde pública das próximas décadas. O Brasil já convive hoje com cerca de 2,1 milhões de pessoas diagnosticadas com a doença, e as projeções indicam que esse número pode triplicar até 2050, impulsionado principalmente pelo envelhecimento acelerado da população.
Apesar da dimensão do problema, o país ainda opera sob uma lógica predominantemente reativa. Em grande parte dos casos, o diagnóstico ocorre apenas quando os sintomas já estão instalados e comprometem significativamente a autonomia, a cognição e a qualidade de vida dos pacientes. Nesse estágio, famílias já enfrentam impactos emocionais, financeiros e estruturais profundos.
Essa realidade ajuda a explicar por que o debate sobre prevenção e diagnóstico precoce começa a ganhar espaço de forma mais consistente no Brasil. A chegada ao país de uma nova metodologia aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), capaz de identificar um biomarcador associado ao risco de Alzheimer por meio de um exame de urina com resultado em cerca de 10 minutos, insere o tema em um novo patamar.
O ponto mais relevante talvez não seja apenas o avanço científico em si, mas o que ele representa em termos de mudança de mentalidade. Pela primeira vez, começa a surgir de forma mais concreta a possibilidade de discutir Alzheimer antes dos sintomas aparecerem. Isso altera completamente a lógica tradicional da doença, historicamente associada apenas ao tratamento tardio.
Hoje, exames utilizados para investigação da doença, como PET Scan, punção lombar e testes sanguíneos avançados, possuem alto custo e acesso restrito. Em muitos casos, podem ultrapassar R$ 9 mil por paciente. A nova metodologia chega ao mercado brasileiro com valor estimado entre R$ 500 e R$ 600, tornando a triagem muito mais acessível.
É evidente que nenhum exame isolado resolve um problema tão complexo. O próprio teste funciona como ferramenta inicial de triagem e não substitui investigação clínica aprofundada. Ainda assim, a capacidade de ampliar o acesso à identificação precoce representa uma ruptura importante em um sistema que, tradicionalmente, atua apenas após o agravamento da doença.
Esse movimento ganha ainda mais relevância diante da evolução recente dos tratamentos. Em dezembro de 2025, a Anvisa aprovou o lecanemabe (Leqembi), um dos primeiros medicamentos voltados à modificação do curso do Alzheimer. A utilização dessas terapias depende justamente da confirmação da presença de placas de beta-amiloide, o que aumenta a necessidade de métodos de triagem mais acessíveis e rápidos.
O debate, portanto, deixa de ser apenas médico e passa a envolver sustentabilidade do sistema de saúde, planejamento público e envelhecimento populacional. Estudos já indicam que até 60% dos casos poderiam ser evitados ou retardados com intervenções precoces relacionadas a hábitos de vida, controle de fatores de risco e acompanhamento adequado.
A questão central é se o Brasil está preparado para incorporar uma cultura de prevenção em larga escala. Historicamente, o país investe mais no tratamento da doença instalada do que em estratégias de antecipação de risco. Isso ocorre não apenas no Alzheimer, mas em diversas doenças crônicas.
Ao mesmo tempo, o envelhecimento da população brasileira tornará inevitável uma revisão dessa lógica. Quanto mais tardio o diagnóstico, maiores tendem a ser os custos assistenciais, previdenciários e sociais associados à doença. O impacto não recai apenas sobre o sistema público de saúde, mas também sobre famílias, cuidadores e toda a estrutura econômica ligada ao cuidado de longo prazo.
Nesse cenário, metodologias capazes de ampliar acesso à triagem podem representar mais do que inovação médica. Elas podem funcionar como instrumento de reorganização da própria política de saúde pública, estimulando uma abordagem baseada em monitoramento, prevenção e intervenção antecipada.
O avanço da ciência começa a mostrar que o futuro do Alzheimer talvez não esteja apenas em tratar a doença, mas em conseguir identificá-la cedo o suficiente para mudar sua trajetória. O desafio agora será transformar essa possibilidade tecnológica em acesso real, informação qualificada e política pública efetiva.
*Giulia Campanha de Freitas Lino é Engenheira Civil (UFJF) e Diretora Internacional na Biocon.

