O que muda com as novas regras sobre transfusão de sangue

Por Roberto Luiz da Silva

A Medicina contemporânea avança, cada vez mais, na direção da personalização do cuidado. Isso significa considerar não apenas o diagnóstico, mas também os valores, as escolhas e as convicções de cada paciente. Nesse contexto, uma recente atualização nas diretrizes das Testemunhas de Jeová traz novo capítulo para a relação entre Ciência, ética e liberdade religiosa.

Historicamente, membros desse grupo religioso recusam transfusões de sangue de outras pessoas com base em interpretações bíblicas que orientam a abstenção do uso de sangue. Essa posição sempre representou um desafio para a prática médica, especialmente em situações de emergência ou em tratamentos complexos, como cirurgias de grande porte, transplantes e doenças sanguíneas que exigem o uso do sangue de doadores no planejamento terapêutico dos pacientes.

A novidade está no fato de que agora passa a ser permitido, dentro dessa comunidade, o uso do próprio sangue, desde que coletado, armazenado e reinfundido no mesmo indivíduo em contextos médicos planejados. Em outras palavras, abre-se espaço para estratégias como a transfusão de sangue autóloga, especialmente em procedimentos eletivos.

Gerrit Losch, um dos líderes do grupo de Testemunhas de Jeová anunciou recentemente a mudança dizendo que “cada cristão deve decidir por si mesmo como seu sangue será usado em cuidados médicos e cirúrgicos”. Embora a decisão não represente a aceitação ampla das transfusões, ela sinaliza uma flexibilização importante. A própria liderança do grupo destacou que a escolha sobre o uso do sangue em tratamentos deve ser individual. Ainda assim, permanece a restrição ao uso de sangue de terceiros, o que mantém a necessidade de abordagens médicas alternativas em muitos casos.

O papel do Patient Blood Management

É nesse cenário que ganha ainda mais relevância o Patient Blood Management (PBM), ou gerenciamento do sangue do paciente. Mais do que uma alternativa para casos específicos, trata-se da mudança de paradigma na Medicina moderna.

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a adoção do PBM como estratégia para melhorar desfechos clínicos e reduzir complicações associadas à anemia e ao sangramento. Em documentos recentes, a entidade destaca que a abordagem contribui não apenas para a segurança do paciente, mas também para a sustentabilidade dos sistemas de Saúde. Neste último ponto, o PBM pode reduzir a necessidade de transfusões, diminuir o tempo de internação, evitar complicações e, consequentemente, otimizar o uso de recursos hospitalares, que incluem desde estoques de sangue, sempre limitados, até custos assistenciais mais amplos.

O PBM se apoia em três pilares principais: otimizar a produção de glóbulos vermelhos, minimizar perdas sanguíneas e aumentar a tolerância do organismo à anemia. À primeira vista, pode parecer simples mas, na prática, envolve um conjunto sofisticado de estratégias que começam antes mesmo de qualquer procedimento.

Consensos internacionais publicados em revistas como a JAMA Network mostram que protocolos estruturados de PBM reduzem significativamente a necessidade de transfusões sem comprometer, e muitas vezes até melhorando, os resultados clínicos. Programas bem implementados podem reduzir o uso de sangue em até 40%, além de estarem associados ao menor risco de infecção, a menos tempo de internação e até à redução de mortalidade. Em outras palavras: evitar transfusões, em alguns casos, não é apenas uma questão de escolha, é uma prática baseada em evidência.

No Brasil adotamos essas técnicas desde 2005, especialmente no cuidado de pacientes que recusam transfusões por motivos religiosos. Ao longo desse período, nos consolidamos como referência na América Latina em transplantes de medula óssea sem uso de sangue alogênico, que é aquele proveniente de doadores. Trata-se de uma realidade que dialoga diretamente com uma parcela significativa da população, já que segundo o Censo Demográfico 2010, do IBGE, cerca de 1,39 milhões de brasileiros se declaravam Testemunhas de Jeová.

Com a nova diretriz do grupo religioso, abre-se a possibilidade de avançar ainda mais nesses protocolos, com a incorporação de estratégias como a criopreservação e a reinfusão do próprio sangue do paciente. Na prática, isso amplia o leque de opções terapêuticas sem abrir mão do respeito às convicções individuais, equilíbrio cada vez mais central na Medicina contemporânea.

Quando o direito à vida encontra o direito de escolha

Um caso recente ilustra bem essa evolução. Uma paciente de 41 anos, com mieloma múltiplo, tipo de câncer que afeta as células da medula óssea responsáveis pela produção de anticorpos, e pode comprometer ossos, imunidade e função renal, conseguiu na Justiça que o SUS custeasse seu transplante de medula óssea sem transfusão de sangue em um hospital privado. A decisão levou em conta não apenas a gravidade da doença, mas também o direito constitucional à liberdade religiosa.

O procedimento foi realizado há cerca de seis meses com técnica autóloga, utilizando células da própria paciente, e sem necessidade de transfusões. A decisão judicial reforça o entendimento já consolidado: pacientes adultos, conscientes e capazes têm o direito de recusar determinados tratamentos, mesmo em situações potencialmente graves.

Mais do que um embate entre Ciência e fé, casos como esse mostram que é possível construir pontes. Quando existem alternativas seguras e baseadas em evidências, respeitar a autonomia do paciente deixa de ser um obstáculo e passa a ser parte essencial do cuidado.

O futuro com mais opções e respeito

A atualização das diretrizes das Testemunhas de Jeová não resolve todos os dilemas, especialmente em situações emergenciais ou envolvendo menores de idade, em que decisões judiciais ainda podem ser necessárias. No entanto, representa avanço importante no diálogo entre Medicina e valores individuais.

Para nós, profissionais de Saúde, o desafio continua sendo oferecer o melhor tratamento possível dentro das condições e escolhas de cada paciente. E, nesse sentido, ferramentas como o PBM não são apenas alternativas, mas são cada vez mais parte do padrão de excelência assistencial.

A boa Medicina não é aquela que impõe condutas, mas a que constrói caminhos viáveis, seguros e respeitosos. Quando Ciência e autonomia caminham juntas todos ganham, principalmente o paciente.


*Roberto Luiz Silva é médico hematologista e responsável técnico pelo Departamento de Transplante de Medula Óssea do IBCC Oncologia.

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