Ideologia divide memória da pandemia e adesão às vacinas

Cinco anos após o auge da pandemia de covid-19, o Brasil passa a reinterpretar o período de forma desigual, com percepções que variam conforme o posicionamento ideológico entre pessoas que se identificam com a esquerda ou com a direita. Pesquisa nacional concluída em março mostra que memória da pandemia, apoio à responsabilização por crimes na gestão pública e adesão às vacinas seguem um mesmo padrão e se distribuem de forma distinta entre esses grupos.

No âmbito geral da pesquisa, questionados se uma conduta diferente do governo federal teria resultado em menos mortes, 40,5% responderam que sim, 28,6% disseram que não e 30,9% não souberam opinar.

A distribuição dessas percepções, porém, não é homogênea. Entre pessoas que se identificam como de esquerda, 71% reconhecem que outra condução do governo Bolsonaro teria reduzido as mortes, percentual que cai para 15,6% entre os que se identificam como de direita. Entre eleitores, o padrão se repete: 63,5% dos votantes de Luiz Inácio Lula da Silva compartilham essa avaliação, contra 20,8% entre eleitores do ex-presidente.

“Mais do que uma divergência de opinião, os dados indicam um padrão consistente: quem reconhece mais a gravidade da pandemia também tende a apoiar mais a responsabilização e a aderir mais às vacinas”, observa Pedro Arantes, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do levantamento.

Crédito da imagem: www.medicinasa.com.br (proibida a reprodução sem autorização)
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Crime e punição – Esse mesmo padrão ideológico aparece na avaliação sobre responsabilização por crimes relacionados à pandemia. O apoio à realização de julgamentos é de 45% e se apresenta significativamente mais alto entre pessoas que se identificam com a esquerda — cerca de 72% — do que entre aquelas que se posicionam à direita, onde o índice fica pouco acima de 20%.

Entre avaliadores do governo atual, o contraste também é expressivo: 71,1% entre os que consideram a gestão Lula boa ou ótima apoiam os julgamentos, ante 24,8% entre os que a avaliam negativamente.

Ao mesmo tempo, observa-se um núcleo resistente à responsabilização — próximo de 27% dos entrevistados — que acompanha, em grande medida, os segmentos que também relativizam a condução da pandemia.

Vacinação – No campo da saúde pública, o padrão ideológico também se manifesta na adesão às vacinas. Embora a participação nas campanhas do Programa Nacional de Imunizações permaneça majoritária (72,1%), ela é mais elevada entre pessoas que se identificam com a esquerda do que entre aquelas que se posicionam à direita, que concentram maior parcela de resistência ou hesitação. Entre apoiadores do governo Lula, 81,6% disseram que se vacinam, percentual que cai para 66% entre seus opositores.

No total, 27,9% dos entrevistados apresentam algum nível de afastamento dos imunizantes: seja por não se vacinar (9,9%), por ter abandonado a imunização na pandemia (9,2%) ou por não saber responder (8,8%).

A adesão também varia conforme perfil social. Ela chega a 78,3% entre pessoas com mais de 60 anos e fica em cerca de 62% entre jovens; atinge 77,2% no Sudeste e 62,5% no Norte. Diferenças religiosas seguem a mesma tendência, com maior adesão entre católicos (75,6%) do que entre evangélicos (66%).

“Os dados mostram que o grupo de pessoas mais refratárias ou hesitantes em relação às vacinas se concentra em segmentos com menor identificação com a esquerda e maior exposição à desinformação”, afirma Arantes. “Isso reforça o diagnóstico de que a politização vacinal segue influenciando o comportamento da população.”

Ainda assim, a adesão permanece majoritária em todos os grupos, inclusive entre pessoas de direita, embora em níveis mais baixos.

Dengue – A vacina contra a dengue, recentemente desenvolvida pelo Instituto Butantan, reforça o mesmo padrão ideológico observado nas demais dimensões da pesquisa. Entre pessoas de esquerda, 65% afirmam que pretendem se vacinar contra a dengue o quanto antes, percentual que cai para 46,2% entre as de direita. A desconfiança também é maior nesse grupo, assim como os níveis de indiferença ou indecisão.

Embora cerca de 70% dos entrevistados tenham atitude favorável ao novo imunizante, apenas 56,7% dizem que pretendem se vacinar imediatamente, enquanto 13,7% consideram a vacina importante, mas não prioritária neste momento.

Os dados revelam uma ampla zona de hesitação, formada por grupos que expressam indiferença (10,5%), incerteza (8,1%) ou desinteresse (6,7%), além de uma rejeição explícita minoritária (4,8%). Essa distância entre reconhecer a importância e decidir se vacinar se distribui de maneira desigual entre esquerda e direita.

A hesitação varia ainda por idade e região, sendo maior entre jovens e mais intensa no Norte do que no Sudeste, padrão que se repete na vacinação em geral.

Para os pesquisadores, o conjunto dos resultados mostra que o posicionamento ideológico se tornou um eixo estruturante da forma como a sociedade brasileira percebe a pandemia, avalia a responsabilização por seus efeitos e decide sobre a vacinação.

“A confiança nas vacinas continua elevada, mas a desinformação cria uma distância importante entre reconhecer a importância e efetivamente se vacinar”, observa Arantes. Segundo ele, esse cenário indica a necessidade de reconstruir a memória pública da pandemia e fortalecer a confiança nas políticas de saúde em um contexto ainda marcado por polarização.

A pesquisa “Memória, justiça e reparação da pandemia de covid-19 e atual adesão às vacinas” foi realizada pelo Instituto Idea, com coordenação do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (SoU_Ciência), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Foram entrevistadas por telefone 1.500 pessoas em março último. A amostra é representativa da população brasileira com 16 anos ou mais. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O SoU_Ciência realizou pesquisa semelhante em junho de 2023.

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