Por que a formação é o verdadeiro motor da segurança do paciente?
Por Rubens Covello
Em saúde, ainda existe uma percepção equivocada de que a acreditação é apenas um “selo” institucional. Mas quem vive a realidade do cuidado sabe que a acreditação verdadeira não se sustenta em documentos, e sim em pessoas. Mais especificamente: em profissionais preparados, atualizados e comprometidos com uma cultura contínua de qualidade e segurança.
A segurança do paciente não nasce de um protocolo isolado. Ela é resultado da capacidade de uma instituição transformar conhecimento em prática diária. E isso só acontece quando existe investimento consistente na formação e no desenvolvimento das equipes.
O setor da saúde vive uma transformação acelerada. Novas tecnologias, evolução dos modelos assistenciais e protocolos clínicos cada vez mais complexos exigem dos profissionais uma atualização constante. A formação universitária, embora fundamental, não consegue mais sustentar sozinha toda a jornada de conhecimento necessária para garantir um cuidado seguro ao longo da carreira.
Na prática, isso significa que profissionais que deixam de se atualizar tendem a trabalhar com processos desatualizados, menor capacidade de análise crítica e mais vulnerabilidade a falhas assistenciais. E, no campo da saúde, pequenas falhas podem gerar impactos enormes.
Quando falamos em acreditação, precisamos entender que o maior patrimônio de uma instituição não é a certificação em si, mas a capacidade de manter equipes capacitadas para sustentar padrões de excelência continuamente.
Instituições de saúde com maturidade em qualidade sabem que a segurança do paciente não depende apenas de auditorias periódicas. Depende de educação contínua, treinamento multidisciplinar, desenvolvimento de lideranças e fortalecimento da tomada de decisão baseada em evidências.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes e menos discutidos do debate sobre qualidade assistencial: a segurança não é um estado permanente. Ela precisa ser construída todos os dias.
Um hospital pode conquistar uma acreditação hoje e, ainda assim, perder consistência operacional ao longo do tempo caso não invista continuamente na evolução técnica e comportamental de suas equipes. Da mesma forma, instituições que cultivam uma cultura forte de aprendizado conseguem melhorar resultados mesmo antes de alcançarem certificações formais. Isso acontece porque a qualidade real está no comportamento organizacional.
Quando profissionais são estimulados a estudar, revisar processos, discutir eventos adversos, compartilhar experiências e compreender profundamente os riscos assistenciais, a instituição cria um ambiente mais resiliente e seguro. O erro deixa de ser tratado apenas como falha individual e passa a ser analisado de forma sistêmica. Ou seja, uma visão essencial para reduzir danos e promover melhoria contínua.
Além disso, existe um fator geracional importante. Os profissionais mais jovens chegam ao mercado em um contexto muito diferente daquele de décadas atrás. Hoje, as competências técnicas precisam caminhar ao lado de habilidades relacionadas à gestão, comunicação, tecnologia, análise de dados e cultura de segurança. Isso exige novos modelos de educação e atualização profissional.
O próprio conceito de excelência em saúde mudou. Antigamente, era comum associar a excelência principalmente ao conhecimento técnico individual. Hoje, ela depende da capacidade coletiva de aprender continuamente e adaptar processos de forma segura.
Nesse cenário, instituições que enxergam a educação apenas como obrigação regulatória tendem a ficar para trás. O futuro da saúde pertence às organizações que transformam aprendizado em estratégia institucional.
A acreditação, portanto, não deve ser vista como ponto de chegada. Ela é consequência de uma cultura organizacional madura, sustentada por pessoas que aprendem continuamente.
Portanto, o verdadeiro desafio da saúde moderna é formar profissionais capazes de sustentar qualidade em um ambiente cada vez mais complexo. Porque, no fim, são as pessoas, não os certificados, que protegem os pacientes.
*Rubens Covello é sócio-fundador e CEO da Quality Global Alliance (QGA), cofundador da HSO – Health Standards Organization e co-fundador e vice-presidente do CBEXs – Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde.

