Pacientes com cateter permanente podem ter um risco de morte entre 40% e 240% maior
O mais recente Censo Brasileiro de Diálise 2024, publicado no Brazilian Journal of Nephrology em 2026, acendeu um alerta importante para a nefrologia no país. O uso de cateter venoso central em pacientes em hemodiálise voltou a crescer no Brasil, com maior risco de infecção, internação e mortalidade. Após permanecer relativamente estável entre 2019 e 2021 (24,8%, 24,7% e 23,9%), o índice de pacientes em uso de cateter saltou para 29% em 2022, manteve-se no mesmo patamar em 2023 e voltou a apresentar piora em 2024. No mesmo período, o país também registrou regressão em indicadores como controle de anemia, fósforo, potássio e adequação dialítica (Kt/V). A mortalidade bruta anual estimada ficou em 16,5%.
Dados apresentados pela DaVita mostram que o custo de hospitalização associado ao cateter é significativamente maior quando comparado à fístula arteriovenosa (FAV). Enquanto pacientes com FAV ou prótese registram 26,6 hospitalizações por 100 paciente-ano, esse número sobe para 59,2 nos casos de cateter de longa permanência e chega a 109,6 nos de curta permanência. Segundo a companhia, a diferença está menos em soluções isoladas e mais na construção de um modelo estruturado de gestão clínica.
Além do impacto assistencial, a diretriz brasileira de acesso vascular mostra que pacientes com cateter permanente podem ter um risco de morte ampliado quando comparados àqueles que utilizam a fístula nativa. “Ver o Brasil regredir nesse indicador, junto com a piora de anemia, fósforo e Kt/V, é um alerta de saúde pública que vai muito além de uma métrica operacional. O cateter aumenta o risco de infecção, internação e mortalidade, além de gerar um custo muito maior para todo o sistema de saúde, com mais uso hospitalar, antibióticos e procedimentos de urgência. Quando conseguimos antecipar a confecção da fístula, estamos falando de melhor desfecho clínico, maior previsibilidade assistencial e também de mais sustentabilidade para o SUS e para a saúde suplementar”, afirma Bruno Zawadzki, Vice-Presidente de Serviços Médicos da DaVita.
Enquanto a média nacional piora, a DaVita Brasil seguiu trajetória oposta. A rede, que conta com mais de 120 clínicas e cerca de 30 mil pacientes em tratamento, opera atualmente com uso de cateter em torno de 27%, abaixo da média nacional estimada em aproximadamente 32%, mantendo uma tendência consistente de redução. Diante deste cenário, a DaVita prepara um programa estruturado para ampliar ainda mais o uso de fístulas arteriovenosas em toda a rede, adaptado às diferentes realidades do SUS, da saúde suplementar e das particularidades regionais brasileiras. Esse trabalho envolve três frentes principais: encaminhamento precoce para a confecção da fístula, uso de tecnologia para aumentar a segurança dos procedimentos e acompanhamento constante dos indicadores clínicos de cada unidade.
O primeiro pilar é a integração entre nefrologia e cirurgia vascular, permitindo que o paciente seja encaminhado com antecedência para a criação do acesso definitivo — um desafio importante no Brasil, onde muitos ainda iniciam a diálise em caráter de urgência. O segundo é o uso de tecnologia aplicada à segurança do procedimento, com mapeamento vascular por doppler em casos selecionados e implantação de cateter guiada por ultrassom e radioscopia. A própria diretriz brasileira aponta que o ultrassom reduz falhas de implantação, punção arterial e hematomas, enquanto o doppler pré-operatório pode diminuir a falha primária da fístula em pacientes selecionados. “A diferença não está em um equipamento isolado. Está em sistema. Cada unidade é acompanhada mensalmente por indicadores padronizados, e o acesso vascular é tratado como prioridade estratégica”, explica Zawadzki.
O terceiro pilar é a governança de dados, com dashboards clínicos mensais, metas por unidade e acompanhamento longitudinal da conversão de cateter para acesso definitivo. “Nosso foco não é simplesmente bater meta. É garantir que o paciente que chega à DaVita tenha uma jornada assistencial estruturalmente diferente da média oferecida hoje no Brasil”, conclui.
Segundo Bruno Zawadzki, que também é coautor do Censo 2024, o aumento do uso de cateter vai muito além da rotina clínica. “O cateter costuma ser utilizado quando o paciente inicia a diálise sem planejamento prévio ou em situações de urgência. Ele é importante nesses casos, mas não deve ser a solução definitiva. A fístula arteriovenosa é o acesso mais seguro para tratamentos prolongados, pois reduz o risco de infecções, internações e complicações graves”, explica.


