Descredenciamento de hospitais por planos de saúde acende alerta sobre quebra de confiança no setor

O aumento dos descredenciamentos de hospitais por operadoras de planos de saúde no Brasil tem gerado instabilidade e levantado preocupações sobre a confiança na cadeia de valor do setor. Em posicionamento público, o Instituto Ética Saúde (IES) alerta para os impactos dessas decisões, especialmente quando realizadas de forma unilateral, e defende a necessidade de revisão das práticas adotadas pelas operadoras.

A discussão ganhou força após o descredenciamento do Hospital Israelita Albert Einstein de parte da rede da SulAmérica, a partir de janeiro de 2026. Embora a medida não tenha atingido todos os beneficiários e haja decisões judiciais revertendo casos específicos, o episódio expôs fragilidades na relação entre operadoras, prestadores de serviço e pacientes.

“Quando um hospital de referência deixa de integrar a rede de um plano, o impacto vai além de uma decisão comercial. Estamos falando de uma ruptura na confiança construída com o paciente no momento da contratação”, afirma Sérgio Rocha, presidente do Conselho de Administração do Instituto Ética Saúde.

Segundo o IES, a escolha de um plano de saúde frequentemente está associada à rede hospitalar oferecida, o que torna o descredenciamento um fator de frustração para os beneficiários. A entidade destaca ainda que o consumidor, especialmente o idoso, enfrenta barreiras relevantes para migrar de plano, como custos elevados e imposição de novos períodos de carência.

Para o instituto, a prática, embora prevista em norma da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), não pode ser conduzida de forma arbitrária ou com foco exclusivo em eficiência econômica. O IES ressalta que decisões desse tipo devem considerar o impacto direto sobre a assistência ao paciente e a sustentabilidade das instituições de saúde.

“A gestão da rede assistencial não pode se limitar a planilhas de custos. É preciso reconhecer que cada decisão impacta vidas reais, famílias e expectativas legítimas criadas no momento da adesão ao plano”, diz Rocha.

O posicionamento também chama atenção para a necessidade de fortalecimento da transparência, do diálogo e da integridade nas relações entre os diferentes atores do setor. O Instituto Ética Saúde é um dos articuladores do Marco de Consenso para Colaboração Ética Multissetorial na Área da Saúde, que reúne dezenas de entidades e prevê diretrizes para relações mais equilibradas e centradas no paciente.

De acordo com o IES, práticas unilaterais de descredenciamento podem enfraquecer esse ambiente de confiança e comprometer a percepção pública sobre o sistema de saúde suplementar. A entidade defende que operadoras adotem critérios mais claros e responsáveis, assegurando previsibilidade e respeito aos contratos firmados.

Além disso, o instituto lembra que a legislação brasileira veda a redução de garantias assistenciais originalmente contratadas pelos beneficiários, ainda que parte dessas controvérsias venha sendo discutida e, em alguns casos, revertida pelo Poder Judiciário.

“O paciente precisa estar no centro de qualquer decisão. Não é razoável que mudanças estruturais na rede assistencial ocorram sem considerar seus efeitos diretos sobre quem depende do sistema para cuidar da própria saúde”, conclui Rocha.

Diante desse cenário, o Instituto Ética Saúde propõe a ampliação do debate entre operadoras, prestadores, reguladores e sociedade civil, com o objetivo de estabelecer práticas mais éticas, transparentes e sustentáveis para o setor.

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