Por que a saúde mental se tornou um KPI de gestão e conformidade?
Por Ticiana Paiva
Durante muitos anos, a saúde mental no ambiente corporativo foi tratada como uma dimensão subjetiva do cuidado, frequentemente associada ao bem-estar, à qualidade de vida ou a iniciativas pontuais de engajamento. Na prática, era vista como um ativo intangível, de difícil mensuração e, portanto, pouco integrada às estratégias centrais de gestão.
Na minha experiência clínica e organizacional, esse cenário vem mudando de forma acelerada. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), aliada ao avanço da epidemiologia ocupacional no Brasil, marca uma transição importante: a saúde mental deixa de ser um tema periférico e passa a ocupar um lugar estruturante na gestão de riscos corporativos. Trata-se, hoje, de uma agenda que envolve não apenas ética e cuidado, mas também compliance, produtividade e sustentabilidade econômica.
Os dados sustentam essa mudança. O Brasil registra níveis crescentes de afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, com impacto direto nos sistemas de saúde, na previdência e, principalmente, na operação das empresas. Ansiedade, depressão e síndrome de burnout não são mais eventos isolados, são manifestações de um contexto organizacional que, muitas vezes, impõe demandas superiores à capacidade adaptativa dos indivíduos.
Nesse contexto, a NR-1 introduz uma mudança conceitual relevante ao exigir a identificação e o gerenciamento dos chamados riscos psicossociais. Isso inclui fatores como sobrecarga cognitiva, ambiguidade de papéis, pressão por performance contínua, assédio moral e a dissolução dos limites entre vida profissional e pessoal. Na prática, saímos de um modelo reativo, focado no tratamento após o adoecimento, para um modelo de vigilância em saúde, baseado em monitoramento contínuo e análise de dados.
Como profissional da psicologia, entendo que o grande desafio, a partir de agora, é traduzir fenômenos clínicos em indicadores operacionais. A saúde mental precisa ser incorporada aos dashboards de gestão por meio de KPIs claros e acompanháveis.
Entre eles, destaco a taxa de absenteísmo por CID relacionado a transtornos mentais, indicadores de presenteísmo, níveis de segurança psicológica nas equipes e métricas de engajamento sustentado.
O presenteísmo, em especial, merece atenção. Trata-se de um fenômeno silencioso, no qual o colaborador está fisicamente presente, mas com sua capacidade cognitiva e emocional comprometida. Diferentemente do absenteísmo, que é visível e mensurável, o presenteísmo corrói a produtividade de forma difusa, impactando tomada de decisão, criatividade, relacionamento interpessoal e, consequentemente, resultados de negócio.
Ao integrar psicologia, medicina e ciência de dados, passamos a ter uma capacidade inédita de antecipação. Modelos preditivos permitem identificar padrões de risco antes que o adoecimento se consolide, possibilitando intervenções mais precoces e efetivas. Esse é um ponto central: a saúde mental, quando monitorada de forma estruturada, deixa de ser apenas uma resposta ao problema e passa a ser uma ferramenta de gestão.
Do ponto de vista clínico, isso também representa uma mudança importante na forma como pensamos o cuidado. Não se trata apenas de ampliar o acesso à terapia ou ao suporte psicológico, embora isso siga sendo fundamental, mas de atuar sobre as causas estruturais do sofrimento. Isso inclui rever modelos de liderança, desenho de jornada de trabalho, cultura organizacional e práticas de reconhecimento.
Em 2026, a saúde mental se consolida como um dos indicadores mais sensíveis da saúde de uma organização. Empresas que não incorporarem essa dimensão em seus processos decisórios tendem a enfrentar não apenas maior adoecimento de suas equipes, mas também perda de competitividade, aumento de custos e dificuldade de retenção de talentos.
A metrificação do que antes era invisível não é apenas uma evolução técnica, é uma mudança de paradigma. E, nesse novo cenário, saúde mental não é mais um diferencial. É, definitivamente, uma condição para a sustentabilidade dos negócios.
*Ticiana Paiva é doutora em psicologia e head de psicologia da Starbem.

