Atuar no pré-diabetes pode ser a chave para frear a doença

Por Denise Franco

O aumento expressivo de casos diagnosticados de diabetes no Brasil acende um sinal de alerta preocupante. Segundo a pesquisa Vigitel 2025 mais recente, divulgada em janeiro deste ano, o número de adultos com diabetes saltou para impressionantes 135% entre 2006 e 2024, passando de uma prevalência de 5,5% para 12,9%.

Em números absolutos, o Brasil reúne mais de 16 milhões de pessoas com diabetes. Os dados são do Atlas Mundial elaborado pela Federação Internacional de Diabetes (IDF, na sigla em inglês), que aponta o país na sexta posição em um ranking liderado por China, Índia, Estados Unidos, Paquistão e Indonésia.

Como endocrinologista, especialista em tecnologia no tratamento do diabetes e profissional dedicada à saúde, enxergo esses números do Vigitel não apenas como uma estatística de crescimento, mas como um indicativo de que estamos chegando atrasados na jornada do paciente.

O cenário brasileiro revela um paradoxo: embora a população esteja atenta a certos hábitos nocivos — como demonstra a queda drástica no consumo de refrigerantes (de 30,9% em 2007 para 16,2% em 2024), outros fatores seguem em “bandeira vermelha”.

A pesquisa aponta, por exemplo, que um quarto da população consumiu cinco ou mais grupos de ultraprocessados no dia anterior à entrevista (na edição especial sobre estado nutricional e consumo alimentar, o Vigitel constatava estabilidade na casa dos 17% na ingestão desse tipo de produto pelos brasileiros entre 2018 e 2023). São notórias também as informações sobre a duração e a qualidade do sono dos brasileiros: 20,2% dos adultos dormem menos de seis horas por noite.

Todos esses aspectos influenciam diretamente a resistência à insulina e são de extrema importância para a compreensão do cenário de diabetes no país. Mas, para além dos hábitos, precisamos olhar para uma “raiz silenciosa” do problema: o pré-diabetes. A condição, diagnosticada em casos de glicemia em jejum entre 100 e 125 mg/dl, afeta cerca de 30 milhões de brasileiros.

Estamos, assim, diante de uma massa de brasileiros que caminha em direção a uma doença crônica grave sem qualquer consciência do risco. Estimativas apontam que apenas 1 em cada 9 pessoas sabe que convive com o pré-diabetes.

Precisamos, sim, estimular um estilo de vida mais saudável da população, com alimentação sem ultraprocessados e baseado no que o Guia Alimentar para a População Brasileira propõe. Precisamos também estimular formas de que a atual mudança de estilo de vida possibilite mais minutos dedicados a atividades físicas e descanso, com boas horas de sono.

Mas também temos que olhar para os fatores que influenciam a predisposição para o pré-diabetes, como idade acima dos 35 anos, histórico familiar de DM2, obesidade e sobrepeso, hipertensão arterial, síndrome metabólica, doença aterosclerótica, DM gestacional ou diabetes, Síndrome dos Ovários Policísticos, uso crônico de medicamentos antipsicóticos ou para depressão. Sem os devidos cuidados, é estimado que cerca de 50% desses pacientes evoluam para o diabetes tipo 2 em apenas cinco anos.

Vale lembrar que o diabetes é uma Doença Crônica Não Transmissível (DCNT), grupo que, hoje, representa um dos maiores desafios de saúde pública global.

O custo humano das DCNTs é de grande impacto: em 2024, aproximadamente 790 mil óbitos ocorreram por doenças do tipo em território nacional. Destes, 323 mil (40,9%) foram mortes prematuras, atingindo cidadãos entre 30 e 69 anos — pessoas no auge de sua vida produtiva e familiar. O diabetes, quando não controlado, é um dos principais catalisadores dessas perdas, pois ocasiona complicações cardiovasculares, renais e neurológicas — que poderiam ser evitadas.

Janela de oportunidade real e cientificamente comprovada

Por mais que os números mostrem um cenário desafiador, podemos olhar para o horizonte com uma carga de otimismo se fizermos a lição de casa.

Isso porque existe uma janela de oportunidades a partir do manejo correto do pré-diabetes. Quando o tratamento e a intervenção do pré-diabetes são feitos de maneira certa, é possível reduzir o risco em até 58% de progressão para o diabetes tipo 2, reduzir em mais de 50% o risco de morte cardiovascular ou hospitalização por insuficiência cardíaca e em 37% o risco de mortalidade por todas as causas.

Não estamos falando, portanto, em apenas adiar o problema, mas sobre prevenir que o diabetes se instale em mais da metade da população em risco e, que outras doenças, especialmente as cardiovasculares, causem ainda mais mortes.

Nossa missão deve ser a de transformar a ação ainda no pré-diabetes em uma estratégia de defesa nacional. Isso pede um esforço conjunto de ampliação do acesso ao diagnóstico precoce, à educação e informação sobre os riscos do pré-diabetes e ao tratamento correto. Atuar enquanto a condição não evoluiu não é apenas uma escolha médica; é uma medida ética e econômica para preservarmos o futuro do nosso sistema de saúde e a vida de milhões de pessoas.


*Denise Franco é endocrinologista e especialista em tecnologia no tratamento do diabetes e membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).

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