Vivemos mais, mas não melhor; e isso não é inevitável
Por Alline Cezarani
O Brasil está envelhecendo, mas não necessariamente melhorando. Vivemos mais, é verdade. Mas passamos mais de uma década da vida lidando com doenças crônicas, limitações ou perda de autonomia. Esse cenário evidencia um alerta importante sobre o modelo de saúde que estamos construindo.
A expectativa de vida no Brasil já ultrapassa os 76 anos de idade, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (dados de 2024). Nunca vivemos tanto. Viver mais, todavia, não significa viver melhor. O brasileiro vive hoje, em média, até os 65 anos com saúde plena, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso quer dizer que passamos mais de uma década convivendo com doenças graves ou limitações severas.
Há um descompasso considerável entre tempo de vida e qualidade de vida. Esse é um dos principais desafios da saúde contemporânea. Na prática, a distorção é visível dentro dos serviços de saúde. A maior parte dos idosos brasileiros convive com pelo menos uma doença crônica, muitos com comorbidades simultâneas. Mais do que impactar a vida das pessoas, esse quadro pressiona todo o sistema de saúde, do público ao suplementar.
A situação fica cada vez mais complexa e, ao mesmo tempo, o país envelhece em ritmo acelerado. Em pouco mais de duas décadas, a população 60+ saltou para mais de 33 milhões e esse crescimento não é homogêneo: o CEP ainda define quanto se vive, e como se vive. No Brasil, envelhecer bem ainda é, em grande medida, um privilégio geográfico e econômico. Prova disso é que há uma disparidade de mais de 15 anos na expectativa de vida entre bairros da mesma cidade.
Diante desse cenário, ir além do diagnóstico é necessário. A ciência já apresentou provas suficientes de que envelhecer bem não resulta de um único elemento. Pesquisas conduzidas por instituições como a Universidade de São Paulo indicam que o privilégio de envelhecer com qualidade está diretamente relacionado a um conjunto de fatores que vão de genética e hábitos de vida até aspectos econômicos e socioambientais.
Sabemos há décadas o que funciona: alimentação adequada, atividade física regular, sono de qualidade, atenção à saúde mental, controle do estresse e vínculos sociais consistentes. Embora tratadas como escolhas individuais, essas condições dependem, na prática, de contexto, acesso e estrutura. Esse ponto é crucial.
Regiões do mundo conhecidas pela alta concentração de pessoas longevas, as chamadas “zonas azuis”, mostram que viver mais e melhor não é exceção. É a consequência de ambientes que favorecem escolhas saudáveis. Nesses locais, o saudável não exige esforço constante, é parte do cotidiano. No Brasil, estamos evoluindo, mas ainda há muito a avançar. Seguimos operando sob uma lógica que prioriza o tratamento da doença, e não a prevenção.
Falamos a respeito e incentivamos o cuidado depois que o problema já se instalou, e não quando ainda há chances de evitá-lo. Paralelamente, oferecemos condições desiguais para que as pessoas consigam, de fato, cuidar de si ao longo da vida. É por isso que falar de saúde de forma macro exige ampliar o olhar.
Não se trata somente de responsabilizar o indivíduo por seus hábitos, mas de reconhecer que envelhecer com saúde depende, e muito, de políticas públicas consistentes: acesso à atenção primária, alimentação de qualidade, educação em saúde e redução de desigualdades estruturais, entre tantas outras iniciativas.
O envelhecimento digno e saudável precisa deixar de ser apenas um indicador demográfico para se tornar um projeto coletivo. Do ponto de vista das instituições, significa avançar para além do cuidado pontual e investir, cada vez mais, em modelos centrados na prevenção e na promoção da saúde.
Já no aspecto individual, implica entender que pequenas escolhas, repetidas diariamente, com consistência, têm o poder de construir ou comprometer o futuro.
O Brasil já venceu o desafio de viver mais. Agora precisa enfrentar o mais complexo: garantir que esses anos a mais sejam, de fato, anos de vida, e não apenas de sobrevida.
*Alline Cezarani é CEO da Rede Santa Catarina.

