Brasil precisa recolocar as vacinas no centro das decisões de saúde

Por Maria Isabel de Moraes-Pinto

O início de 2026 nos impõe uma reflexão que vai muito além das salas de vacinação. A imunização deixou de ser apenas uma escolha individual de proteção contra infecções para se tornar um vetor de estabilidade nacional. O Brasil, historicamente reconhecido pela eficiência do seu Programa Nacional de Imunizações (PNI), atravessa um momento em que a saúde pública, a economia e a estratégia social se fundem em um único pilar.

O cenário global mudou drasticamente. O retorno de doenças que considerávamos controladas, a intensificação das viagens internacionais e as mudanças climáticas — que alteram o comportamento de patógenos e vetores — criaram a “tempestade perfeita”. Para navegar por ela, precisamos adotar urgentemente o conceito de “Economia da Prevenção”.

O investimento em imunização não pode ser tratado como gasto; é a estratégia mais barata e eficiente para evitar o colapso de sistemas de saúde, o esvaziamento de postos de trabalho e a tragédia humanitária de surtos evitáveis.

Baixa adesão

Dados recentes e preocupantes, como os do Anuário VacinaBR 2025 — lançado pelo Instituto Questão de Ciência (IQC), com apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e parceria do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) —, apontaram que, desde 2015, o Brasil enfrenta uma queda importante das coberturas vacinais. Embora tenhamos visto uma leve recuperação entre 2024 e o início de 2025, o cenário ainda é de alerta máximo: mais de 80% da população vive em cidades que não atingiram as metas do PNI.

Segundo o Anuário, em 2023, nenhuma vacina infantil do calendário nacional atingiu a meta em todos os estados. O destaque negativo recai sobre imunizantes cruciais, como os contra a poliomielite, meningococo C, varicela e Haemophilus influenzae tipo b. Em nenhuma unidade federativa a cobertura alcançou os 95% necessários para bloquear a transmissão. A disparidade regional é gritante: enquanto no Ceará 59% das cidades atingiram as metas para vacinas prioritárias, no Acre esse índice foi de apenas 5%.

Mesmo a vacina BCG, que protege contra formas graves de tuberculose, só alcançou a meta em oito unidades federativas. No Espírito Santo, a taxa ficou abaixo de 58%. Essa desigualdade cria “bolsões de suscetibilidade” — grupos populacionais inteiros sem proteção que funcionam como combustível para patógenos.

Alerta

A queda nos índices de vacinação acende um alerta. Doenças que já estavam controladas, ou até mesmo eliminadas, voltaram a representar uma ameaça real à saúde pública. Embora o país tenha reconquistado a certificação de eliminação do sarampo, a baixa cobertura vacinal mantém o risco de surtos causados por casos importados. Em 2025, foram quase 40 casos, a maioria pela reentrada de pessoas infectadas após viagens à Bolívia, que enfrentou surtos da doença.

Mas há um dado preocupante divulgado pelo Ministério: a cobertura da vacinação no público infantil ficou próxima do ideal de 95% na 1ª dose, mas atingiu pouco mais de 75% na 2ª.

Levantamento realizado pelo Observatório de Saúde na Infância (Observa Infância), da Fiocruz e da Unifase, revelou que, em 2024, o Brasil registrou 2.152 casos de coqueluche em crianças menores de cinco anos. O número representou um aumento relativo de 1.353% em relação a 2023, que contou com 159 casos registrados. A baixa cobertura vacinal, sobretudo após a pandemia, foi apontada como a maior responsável pelo aumento dos casos.

Produtividade

Um país que não vacina é um país que interrompe sua produtividade. A imunização impacta diretamente quatro pilares fundamentais:

  • Sistema de saúde: Cada real investido em vacinas economiza dezenas em internações de alta complexidade, reduzindo drasticamente a pressão sobre o SUS.
  • Economia e trabalho: Populações protegidas significam menos absenteísmo e menor necessidade de gastos emergenciais para conter crises sanitárias.
  • Educação: O controle de doenças evita o fechamento de escolas e o prejuízo cognitivo e social das futuras gerações.
  • Equidade social: A vacina é a ferramenta de distribuição de renda mais eficaz que existe, pois protege com maior intensidade justamente aqueles que têm menos acesso a cuidados privados.

Confiança e ciência

A hesitação vacinal é alimentada por um paradoxo: o sucesso da vacina gerou sua própria invisibilidade. Como não vemos mais crianças em cadeiras de rodas pela pólio, muitos acreditam que a imunização não é mais necessária. Somado a isso, a desinformação digital criou ruídos que alimentam o medo.

Precisamos resgatar a confiança pública por meio de uma comunicação empática, transparente e capilarizada. O desafio que se impõe em 2026 não é científico — a ciência já entregou as soluções —, mas sim, político e social.
Recolocar as vacinas no centro das decisões de saúde é o único caminho para garantir a estabilidade econômica e proteger vidas. A prevenção não é um custo; é o alicerce sobre o qual garantiremos o futuro do Brasil e dos brasileiros.


*Maria Isabel de Moraes-Pinto é coordenadora em vacinas na Dasa.

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