O uso correto de antibióticos se tornou uma urgência global

Por Guilherme Ambar

Os antibióticos transformaram a medicina moderna. Infecções que antes eram potencialmente fatais passaram a ser tratáveis, cirurgias tornaram-se mais seguras e terapias complexas, como quimioterapia e transplantes, passaram a ser viáveis. No entanto, essa conquista histórica enfrenta hoje uma ameaça crescente: a resistência bacteriana, que está associada a cerca de 5 milhões de mortes/ano em todo o mundo.

O fenômeno ocorre quando bactérias desenvolvem mecanismos para sobreviver à ação dos antimicrobianos, tornando tratamentos progressivamente menos eficazes. O problema não é novo, mas ganhou dimensão global nas últimas décadas, impulsionado principalmente pelo uso excessivo ou inadequado desses medicamentos. Segundo a OMS, a resistência antimicrobiana já é considerada uma das principais ameaças sanitárias do século XXI. Sem medidas efetivas, infecções comuns podem voltar a representar riscos elevados, revertendo avanços conquistados ao longo de décadas.

No Brasil, o enfrentamento desse cenário ganhou reforço com a publicação da Diretriz Nacional para o Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos em Serviços de Saúde, elaborada pela Anvisa. O documento consolida recomendações para hospitais e instituições de saúde adotarem programas estruturados voltados ao uso racional de antibióticos.

A resistência bacteriana não depende apenas da existência de novos medicamentos, mas da forma como os atuais são utilizados. Prescrições inadequadas, interrupção precoce do tratamento, automedicação e uso de antibióticos em situações nas quais eles não são necessários, como infecções virais, aceleram o surgimento de microrganismos resistentes.

Um dos desafios mais relevantes está na chamada prescrição empírica, quando o tratamento é iniciado antes da identificação precisa do agente infeccioso. Em muitos casos, essa decisão é inevitável, especialmente em situações graves. No entanto, quando ocorre de forma sistemática e sem revisão posterior, pode levar ao uso excessivo de antibióticos de amplo espectro, aumentando a pressão seletiva sobre as bactérias.

A recomendação, que consta inclusive na Diretriz da Anvisa, aponta para a implementação dos chamados Programas de Gerenciamento de Antimicrobianos, que incluem monitoramento de prescrições, educação contínua das equipes de saúde, análise de indicadores e revisão periódica das terapias iniciadas. Estudos mostram que iniciativas desse tipo conseguem reduzir significativamente o uso inadequado de antibióticos, além de diminuir eventos adversos e tempo de internação hospitalar.

Nesse contexto, o diagnóstico laboratorial assume papel cada vez mais estratégico. Avanços tecnológicos têm permitido identificar patógenos com maior rapidez e precisão, auxiliando médicos a diferenciar infecções bacterianas de quadros virais e a escolher tratamentos mais direcionados. Quanto menor o tempo entre a suspeita clínica e a confirmação diagnóstica, maior a chance de evitar terapias desnecessárias.

Essa mudança representa uma evolução importante no cuidado em saúde. Em vez de decisões baseadas predominantemente na probabilidade clínica, a medicina caminha para modelos orientados por dados diagnósticos mais rápidos e abrangentes, o que contribui tanto para a segurança do paciente quanto para a preservação da eficácia dos antimicrobianos.

Outro ponto é a necessidade de engajamento institucional. O combate à resistência bacteriana exige participação ativa de gestores hospitalares, equipes multiprofissionais e políticas públicas integradas. Não se trata apenas de uma decisão individual do médico, mas de um esforço coletivo para equilibrar acesso ao tratamento e responsabilidade sanitária.

A conscientização da população também é parte essencial desse processo. Antibióticos não devem ser utilizados sem orientação médica nem compartilhados entre pessoas, e o tratamento precisa ser seguido conforme prescrito, mesmo após a melhora dos sintomas. Pequenas atitudes individuais têm impacto direto na evolução do problema em escala global.

Embora o desenvolvimento de novos antibióticos continue sendo importante, o uso mais inteligente dos medicamentos disponíveis será decisivo nos próximos anos. Preservar a eficácia dessas terapias significa proteger uma das bases da medicina contemporânea. A resistência bacteriana não é uma ameaça distante. Ela já faz parte da realidade dos sistemas de saúde e exige mudanças na forma como profissionais, instituições e pacientes compreendem o uso dos antibióticos. Mais do que tratar infecções, o desafio agora é garantir que os tratamentos continuem funcionando no futuro.


*Guilherme Ambar é biólogo, CEO da Seegene Brasil e diretor de Inovação da CBDL.

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