Pesquisadores desenvolvem método de triagem auditiva pelo celular para a OMS

Pesquisadores da Faculdade de Odontologia da USP em Bauru desenvolveram em conjunto com as Universidades Federais do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Paraíba (UFPB) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) um teste de triagem auditiva rápida, voltado para adultos e em língua portuguesa, que pode ser feito pelo aplicativo HearWHO mesmo em regiões que ainda não possuem toda a infraestrutura necessária para realizar testes de audição. Deborah Viviane Ferrari, professora do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia da USP de Bauru, explica como o teste funciona.

“A triagem é muito simples, leva em torno de três minutos e consiste em um autoteste, então ela pode ser feita pelo próprio usuário usando um smartphone ou tablet e um fone de ouvido comum. No HearWHO é utilizado um teste que se chama teste de dígitos no ruído, o usuário escuta conjuntos de trios de dígitos, como, por exemplo: cinco, quatro, três, esses números estão misturados com um ruído de fundo e o indivíduo tem que escutar e digitar aquilo que ele ouviu. No decorrer do teste, o nível de dificuldade e o volume vão se ajustando automaticamente e, com base nessas respostas, o usuário recebe uma pontuação do teste correlacionada com a audiometria. Com base nessa pontuação, a gente consegue estimar qual seria o estado da audição desse indivíduo, se está tudo bem ou se ele realmente precisa procurar ajuda e fazer uma avaliação diagnóstica completa.”

Crédito da imagem: www.medicinasa.com.br (proibida a reprodução sem autorização)
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O desenvolvimento do teste e uma nova versão 100% brasileira

Deborah explica as etapas do desenvolvimento do teste de triagem auditiva rápida. “O desenvolvimento passou por um processo científico bastante rigoroso, feito em parceria com um grupo de pesquisadores, estudantes de pós-graduação e de graduação. Nós desenvolvemos os estímulos em português, gravamos e equalizamos os estímulos, depois validamos o teste com diferentes populações para que a gente garantisse que o nosso teste em português teria a mesma confiabilidade, sensibilidade e especificidade dos testes em outras línguas. Foi um processo que se iniciou em 2017 e nós conseguimos fazer toda a validação e lançar a versão em português no ano passado.”

De acordo com a professora, existe um projeto para criar um aplicativo nacional e adaptado para a realidade brasileira que permita o teste de triagem auditiva rápida. “Nós estamos desenvolvendo um aplicativo nacional chamado Ouvir Brasil, com financiamento do CNPq e da Finep, que também usa o teste de dígitos no ruído. O HearWHO é da Organização Mundial da Saúde, ele foi feito sem pensar nas especificidades do público brasileiro porque ele é um aplicativo internacional, enquanto o Ouvir Brasil não, ele está em fase de testes de usabilidade e nós estamos fazendo com funcionalidades adicionais pensadas para a realidade brasileira e para o SUS. Nós esperamos que esse aplicativo brasileiro tenha um papel como ferramenta de triagem e de rastreio para contribuir para a vigilância epidemiológica, visto que nós temos muito poucos estudos populacionais no Brasil e a prevalência da perda auditiva acaba sendo subestimada.”

Quem é mais impactado pela perda de audição no Brasil?

Deborah também comenta qual é o principal público atingido pela perda auditiva e as principais causas. “No Brasil, um estudo de base populacional de 2007 identificou que 20% da população brasileira tem algum tipo de perda auditiva, um número bastante alto, mas, desses, 6% são aquelas perdas auditivas que nós consideramos incapacitantes e que vão precisar de tratamento. Nesse estudo, os grupos com maior risco foram pessoas do sexo masculino, acima de 60 anos, com menor escolaridade e menor renda, mas isso não significa que outras causas não existam.”

“As causas para a deficiência auditiva são multifatoriais, dentre as principais nós temos fatores ao longo da vida, como condições na gestação, uso de álcool, tabagismo na gestação, complicações na hora do nascimento, questões genéticas do próprio envelhecimento, doenças infecciosas como sarampo, caxumba e meningite podem gerar a perda auditiva, assim como alguns medicamentos como antibióticos e quimioterápicos podem também lesar a audição, por isso que é muito importante a vacinação. Mas um dado mais preocupante da era moderna é a perda auditiva em jovens por conta de uso excessivo e com volume muito alto de fones de ouvido, de música amplificada ou videogame, essa tem sido considerada a principal causa de perda auditiva evitável pela própria Organização Mundial da Saúde, a exposição a esses sons intensos, principalmente com os fones que ficam dentro do ouvido, eles representam um risco real para uma perda auditiva que vai ser irreversível”, finaliza Deborah.

(Com informações do Jornal da USP)

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