As transformações da Hepatologia nos últimos 25 anos

Por Gustavo Pereira

O fígado é um órgão cuja função sempre despertou interesse e fascinou a humanidade. Este interesse natural fez com que a história da Hepatologia acompanhasse a evolução da medicina. Essa história foi inicialmente marcada por conceitos místicos na Antiguidade, como o Mito de Prometeu, passando por avanços na anatomia, histologia e fisiologia nos séculos XVI-XIX e chegando ao desenvolvimento de técnicas diagnósticas que hoje estão amplamente incorporadas à nossa prática diária, como a dosagem de transaminases, assim como o reconhecimento das hepatites virais e realização dos transplantes hepáticos.

O panorama do final do século XX era marcado pelo predomínio das hepatites virais como causa das doenças hepáticas, o uso preponderante da biópsia na graduação da fibrose hepática e o uso da ultrassonografia restrito aos setores de radiologia. Do ponto de vista da terapêutica, as hepatites virais contavam com opções pouco eficazes associadas a efeitos colaterais graves; e o transplante hepático ainda padecia de sobrevida subótima, influenciada pela má tolerância aos imunossupressores e pela recidiva do vírus C.

Este cenário sofreu profundas modificações neste século. Em relação às hepatites virais, a incorporação de vacinas eficazes para hepatites A e B e a utilização de antivirais de ação direta para hepatite B e C promoveram uma redução expressiva nos casos de cirrose e carcinoma hepatocelular associados à estas doenças. A ascensão de métodos não-invasivos, rápidos e altamente acurados, como a elastografia hepática permitiu que um número muito maior de indivíduos pudesse ser avaliado quanto à presença e gravidade da fibrose hepática (que é o principal determinante de prognóstico em portadores de hepatopatia crônica).

O tratamento do carcinoma hepatocelular passou também por profundos avanços, como a utilização do transplante hepático, da combinação de técnicas de radiologia intervencionista e de imunoterapia para seu tratamento. Por fim, a crescente epidemia de obesidade e síndrome metabólica fez com que a doença hepática esteatótica associada à síndrome metabólica (methabolic-associated steatotic liver disease – MASLD) se tornasse a principal causa de doença hepática crônica no mundo ocidental e contribuísse para o número crescente de casos de carcinoma hepatocelular.

Estas mudanças ocorrem num momento em que o cuidado em saúde deixa se ser centrado no médico a passa ser centrado no paciente. Esta transformação é impulsionada por dois pilares: o aumento do awareness (conscientização) e a corresponsabilidade.

Estas mudanças trazem um cenário desafiador para a especialidade. Mais do que nunca, o hepatologista deve ser um profissional com amplo conhecimento e sólida formação em medicina interna. Desta forma, ele será capaz de apontar contribuições expressivas e exercer um papel relevante no cuidado aos seus pacientes. Esta atuação requer uma apurada capacidade de trabalhar em cooperação com outros especialistas e profissionais de saúde, como nutricionistas, endocrinologistas, cardiologistas, oncologistas, radiologistas e endoscopistas. Por outro lado, esta necessidade também faz com que o hepatologista hoje tenha que ter habilidades em outras áreas do conhecimento que o capacitem a cuidar de pacientes candidatos a terapias complexas realizadas muitas vezes por outros especialistas, como imunoterapia para o câncer hepatobiliar, TIPS para hipertensão portal e o transplante hepático.

Os desafios não são menos importantes para as sociedades médicas de Hepatologia. É fundamental que elas tenham capacidade de articulação com outras especialidades, organizações de pacientes e o poder público. Apenas assim será possível aumentar o conhecimento sobre as doenças hepáticas na população, incluindo os grupos de risco e candidatos a avaliação, a implementação de campanhas de rastreio para populações de risco e a adoção de políticas públicas que visem reduzir potenciais agravos a saúde hepática, como por exemplo o consumo alcoólico, e incentivem a doação de órgãos para transplante.

No Grupo de Fígado do Rio de Janeiro (GFRJ), do qual sou o atual presidente, temos realizado diversas atividades científicas nesta direção, proporcionando aos nossos membros oportunidades de atualização em relação ao manejo e tratamento de doenças hepáticas mundialmente falando. Realizamos reuniões, lives, apresentações de casos clínicos, fóruns, simpósios, participamos de congressos e, assim, compartilhamos com nossos pares artigos científicos ou o conhecimento adquirido dentro e fora do Brasil.

Também buscamos o caminho da interdisciplinaridade. Anualmente, realizamos a Semana do Fígado do Rio de Janeiro, que já está em sua 35ª edição e reúne especialistas de áreas diversas em uma intensa programação científica, com palestras de experts nacionais e internacionais, vindos de países como Espanha, Canadá e Estados Unidos, por exemplo.

Apesar dos inequívocos avanços, os desafios da Hepatologia contemporânea ainda são grandes. A correta formação profissional, o reconhecimento do papel das sociedades médicas para além da geração de conhecimento e o envolvimento dos pacientes, profissionais de saúde e os entes públicos são fundamentais para este enfrentamento. E que tenhamos a certeza de que a Hepatologia dos próximos 25 anos continuará a passar por mudanças, sem deixar de ser fascinante e instigante.


*Gustavo Pereira é professor da Faculdade de Medicina da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), médico do serviço de Gastroenterologia e Hepatologia do Hospital Federal de Bonsucesso e atual presidente do Grupo de Fígado do Rio de Janeiro (GFRJ).

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