Da burocracia ao cuidado: a IA na transformação da medicina
Por Matheus Reis
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a ocupar um espaço concreto na rotina de profissionais da saúde no Brasil. De acordo com a pesquisa TIC Saúde 2024, 17% dos médicos brasileiros já utilizam tecnologias de IA generativa em suas atividades profissionais. Os números ainda são tímidos, indicando mudança estrutural importante, que tende a se intensificar nos próximos anos à medida que a tecnologia se torne mais acessível e integrada aos fluxos de trabalho da saúde, além de evidenciar que há um enorme potencial para expansão e amadurecimento dessa adoção no setor.
Os dados mostram que essa aplicação acontece de forma desigual. Em estabelecimentos privados, 20% dos médicos já utilizam IA, enquanto no setor público esse índice é de 14%. A presença da tecnologia também é mais significativa em hospitais, onde 20% dos profissionais fazem uso dessas ferramentas para registro de consultas e visitas médicas. Isso indica que ambientes mais complexos e com maior volume de atendimentos tendem a enxergar a inteligência artificial como uma aliada para lidar com demandas crescentes e processos cada vez mais burocráticos.
É importante destacar que, na prática, a IA tem sido utilizada principalmente como ferramenta de apoio ao trabalho médico, e não como substituta da decisão clínica. A pesquisa aponta que os principais usos estão relacionados ao suporte às pesquisas, citado por 69% dos médicos usuários de IA, e ao auxílio na elaboração de relatórios médicos, mencionado por 54%. Trata-se de ganhos claros de produtividade, organização da informação e redução do tempo dedicado a tarefas repetitivas, permitindo que o profissional concentre sua atenção no cuidado ao paciente.
Quando olhamos para estruturas menores, como as clínicas e estabelecimentos de saúde como um todo, a adoção da IA ainda é bastante limitada. Apenas 4% dessas instituições afirmam utilizar a tecnologia atualmente. No entanto, entre aquelas que já deram esse passo, os benefícios são evidentes.
Nesse contexto, a automatização de fluxos de trabalho aparece como a principal aplicação como um dos caminhos mais evidentes para a transformação digital na saúde. Soluções como secretárias baseadas em inteligência artificial ganham espaços ao organizarem demandas, responder pacientes, confirmar consultas e realizar agendamentos de forma automática, trazendo ganhos relevantes de eficiência operacional e uma experiência mais fluida para quem está do outro lado do atendimento.
Apesar dos avanços, ainda existem limites claros para o uso da inteligência artificial na saúde. O cuidado em saúde é, por natureza, humano. A tecnologia pode organizar processos, otimizar tempo e reduzir falhas operacionais, mas não substitui a escuta, o vínculo, a empatia e o julgamento clínico. Além disso, a adoção da IA esbarra em desafios que vão além da tecnologia: falta de priorização estratégica, percepção limitada de valor e custos de implementação ainda elevados. Esses obstáculos evidenciam que o avanço da inteligência artificial na saúde exige, antes de tudo, uma mudança cultural e de mentalidade dentro das instituições, alinhando inovação, estratégia e foco real no paciente.
O futuro da saúde passa pelo equilíbrio entre automação inteligente e valorização dos profissionais. A inteligência artificial deve assumir aquilo que é repetitivo, operacional e previsível, liberando médicos, enfermeiros e equipes para se dedicarem ao cuidado com as pessoas e prestação de um atendimento de maior qualidade. A discussão não é se a IA fará parte da saúde, mas como ela será integrada, quais limites serão respeitados e como garantir que seu uso esteja sempre a serviço de um sistema de saúde mais eficiente, humano e sustentável.
*Matheus Reis é CEO da Back4you.

