Testes respiratórios no diagnóstico das doenças gastrointestinais
Durante décadas, a investigação das doenças gastrointestinais esteve baseada principalmente na identificação de alterações estruturais, por meio de exames como endoscopia, colonoscopia e métodos de imagem. Esses recursos seguem fundamentais para o diagnóstico de doenças orgânicas.
No entanto, na prática clínica cotidiana, um grande contingente de pacientes apresenta sintomas persistentes, como distensão abdominal, dor, alterações do hábito intestinal e desconforto após as refeições, sem achados anatômicos compatíveis. E tudo isso prolonga o diagnóstico e impacta negativamente, tanto pela experiência do paciente quanto a eficiência do sistema de saúde.
Nesse contexto, os testes respiratórios passam a ocupar um espaço estratégico como ferramentas diagnósticas funcionais, pois oferecem informações que os exames tradicionais não capturam, já que é diferente dos métodos voltados à detecção de lesões. Eles analisam gases exalados (como hidrogênio, metano e, mais recentemente, sulfeto de hidrogênio), que são produzidos a partir da atividade metabólica da microbiota intestinal.
Alterações nos perfis desses gases ao longo do tempo sinalizam desequilíbrios na interação entre microbiota, digestão e motilidade intestinal, permitindo a identificação de condições funcionais que não se manifestam em exames convencionais, como o supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO) e o supercrescimento metanogênico intestinal (IMO).
Os testes respiratórios também têm papel relevante na investigação de intolerâncias alimentares, como lactose, frutose, frutanos, sacarose, sorbitol, xilitol e D-xilose, que figuram entre as causas mais comuns de sintomas gastrointestinais recorrentes.
A confirmação dessas condições possibilita intervenções nutricionais mais direcionadas, evitando restrições alimentares amplas e desnecessárias, que frequentemente comprometem o estado nutricional e a adesão ao tratamento.
Avanços tecnológicos recentes ampliaram significativamente o potencial dos testes respiratórios. Um estudo do American Journal of Gastroenterology avaliou 731 pacientes submetidos a esse tipo de exame para a investigação de SIBO e IMO, destacando o método como relevante para o diagnóstico dessas condições, ao medir diretamente os gases produzidos durante o metabolismo intestinal.
À medida que a medicina avança, os testes respiratórios se consolidam como ferramentas complementares importantes na abordagem das doenças intestinais e funcionais. Para gestores e lideranças em saúde, esse cenário representa a oportunidade de alinhar inovação diagnóstica à qualificação das linhas de cuidado, reduzir o uso de recursos desnecessários e fortalecer modelos assistenciais mais resolutivos e centrados no paciente.
*Raphael Matsunaga é CEO da healthtech HealthGo.

