Como a tecnologia reposiciona os institutos dermatológicos
Por Gabriella Vilela
Durante muito tempo, a dermatologia foi associada quase exclusivamente à estética. Sob a ótica da gestão em saúde, essa visão limitada gera impactos diretos na eficiência assistencial, na utilização de recursos e na sustentabilidade financeira do sistema. A pele, maior órgão do corpo humano, é frequentemente o primeiro local de manifestação de alterações sistêmicas e, quando monitorada de forma estruturada, torna-se um importante ativo estratégico para prevenção, rastreio e diagnóstico precoce.
Do ponto de vista da economia da saúde, diagnósticos tardios estão diretamente relacionados ao aumento de internações, tratamentos de maior complexidade e maior consumo de recursos hospitalares. Nesse contexto, os institutos dermatológicos vêm passando por uma transformação relevante: deixam de atuar apenas como unidades assistenciais e passam a se posicionar como centros de diagnóstico integrado, prevenção e acompanhamento longitudinal, apoiados por tecnologia e inovação.
A incorporação de ferramentas digitais, como prontuários eletrônicos interoperáveis, sistemas de imagem de alta resolução, dermatoscopia digital, inteligência artificial aplicada à análise de lesões e plataformas de teledermatologia, amplia a capacidade de triagem, reduz o tempo entre suspeita e diagnóstico e otimiza fluxos assistenciais. Para gestores e lideranças clínicas, isso se traduz em ganho operacional, maior previsibilidade de custos, melhor alocação de equipes especializadas e redução de gargalos assistenciais.
Outro ponto relevante é o impacto da dermatologia estruturada na atenção primária e secundária. Institutos com protocolos bem definidos e suporte tecnológico conseguem atuar como filtros clínicos qualificados, evitando encaminhamentos desnecessários para níveis de maior complexidade. Esse modelo contribui diretamente para a sustentabilidade dos sistemas público e privado. Estudos internacionais indicam que o diagnóstico precoce
de doenças dermatológicas associadas a condições crônicas reduz significativamente os custos assistenciais ao longo do tempo.
Além da assistência, esses centros assumem papel estratégico na governança clínica e na educação continuada. Em um cenário de crescimento acelerado da desinformação médica, institutos dermatológicos estruturados se consolidam como referências técnicas, apoiando médicos generalistas, orientando fluxos clínicos e promovendo decisões baseadas em evidências, fator essencial para reduzir retrabalho, eventos adversos e desperdícios.
A dermatologia também se consolida como um campo fértil para inovação. O avanço da saúde digital, da interoperabilidade de dados e da medicina preditiva amplia o papel desses institutos como ambientes de pesquisa aplicada, validação de novas tecnologias e integração entre assistência, ensino e inovação.
Em um país marcado por alta exposição solar, envelhecimento populacional e crescimento das doenças crônicas, tratar a saúde da pele como parte estratégica do cuidado integral deixa de ser apenas uma decisão clínica e passa a ser uma decisão de gestão. Investir em tecnologia, protocolos assistenciais e qualificação profissional nos institutos dermatológicos significa antecipar diagnósticos, reduzir custos evitáveis e aumentar a eficiência do sistema de saúde como um todo.
Reconhecer a pele como um ativo estratégico da saúde é reconhecer que inovação, prevenção e gestão caminham juntas quando o objetivo é gerar valor assistencial e garantir sustentabilidade ao setor.
*Gabriella Vilela é preceptora da Faculdade ISMD.

