Quando a suspeita condena o médico antes da perícia
Por Ana Negreiros
Na área da saúde, existe um intervalo perigoso entre a suspeita e a prova. É nesse espaço que reputações profissionais e marcas institucionais podem ser destruídas. Sempre que surge uma denúncia envolvendo um medicamento, um procedimento, um insumo, um serviço ou um profissional, o debate público tende a tratar a hipótese como certeza muito antes de qualquer conclusão técnica. Quando a conclusão enfim chega, a pena simbólica muitas vezes já foi cumprida.
O problema é que, em saúde, a relação entre fato, dano e causalidade quase nunca é simples. Estabelecer se houve erro, evento adverso inevitável ou insucesso terapêutico exige perícia, contexto clínico, avaliação regulatória, análise de processos assistenciais e tempo. O relógio das redes e do noticiário, porém, gira em sentido oposto. Se há suspeita, para muitos já há culpa. Se há repercussão, para muitos já há condenação.
O país tem um retrato evidente do custo dessa pressa, ainda que fora do campo estritamente médico. Em 1994, no caso Escola Base, donos de uma escola infantil em São Paulo e outras pessoas ligadas ao caso foram acusados de abuso sexual e transformados em vilões nacionais antes que a investigação terminasse. Depois, faltaram provas para sustentar a acusação, o inquérito foi arquivado e a Justiça condenou veículos de imprensa a indenizar os ex-donos por danos morais. Nada disso recompôs as vidas destruídas. A reputação, uma vez triturada sob holofotes, raramente volta a ser o que era.
Na saúde, esse mecanismo é ainda mais sensível porque atinge a confiança, que é o principal ativo da relação entre profissional e paciente, entre instituição e sociedade. Um médico, uma clínica, um hospital ou um fabricante pode ser reputacionalmente destruído antes mesmo de se estabelecer se houve falha, qual foi o nexo causal e onde está a responsabilidade efetiva. Quando a apuração técnica finalmente conclui, o veredito público muitas vezes já transitou em julgado no imaginário social, com impacto direto sobre carreira, equipes, contratos, valor de marca e sustentabilidade do negócio.
Há ainda uma armadilha de linguagem que afeta diretamente a gestão da reputação: tratar todo desfecho desfavorável como “erro médico” antes da análise técnica. A expressão carrega uma condenação embutida e, repetida indiscriminadamente, alimenta um ambiente de desconfiança generalizada. Nem todo dano decorre de erro, e nem todo erro decorre de imperícia. Confundir esses planos no calor da repercussão é injusto com o profissional, desinformativo para o paciente e perigoso para a credibilidade do sistema.
Do ponto de vista da governança em saúde, esse cenário exige uma abordagem estruturada de gestão de risco reputacional. Não basta reagir a crises pontuais; é necessário construir protocolos evidentes de resposta a incidentes, que envolvam direção clínica, compliance, áreas jurídica e de comunicação. Isso inclui orientar equipes sobre como registrar fatos, organizar informações técnicas, posicionar-se com transparência e, ao mesmo tempo, proteger o tempo da perícia e o direito de defesa.
Nada disso significa blindar quem erra ou silenciar denúncias legítimas. Significa exigir que a investigação técnica preceda a sentença pública. Conselhos profissionais, instituições de saúde, fabricantes e a imprensa especializada têm o dever de proteger o tempo da apuração, em vez de acelerar a pré-condenação. A presunção de inocência, garantia da Constituição e da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário, não vale apenas dentro do processo. Ela também deve orientar o noticiário, as redes e as conversas que moldam a reputação de quem cuida da saúde dos outros.
Para líderes de hospitais, clínicas, operadoras e indústrias da saúde, a questão deixa de ser apenas jurídica e passa a ser estratégica. O setor precisa decidir se aceitará a destruição reputacional como dano colateral inevitável ou se reconhecerá que, em saúde, condenar antes de apurar não atinge apenas uma pessoa. Corrói a confiança da qual todo o sistema depende e, com ela, a capacidade de atrair pacientes, talentos, parceiros e investidores.
*Ana Negreiros é comunicóloga, especialista em comunicação de crises e com MBA Executivo em Gestão de Crises.

