Metade dos municípios administra o SUS ‘no escuro’ e 78% vivem em crise diária

A gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) nos municípios brasileiros vive em um estado crítico de funcionamento pela persistente falta de recursos financeiros e, sobretudo, por fragilidades na estrutura básica de gestão. É o que mostra um levantamento inédito, que expõe um sistema operando sob pressão constante, com baixa previsibilidade e pouca capacidade de planejamento e gestão. O levantamento, conduzido pela UniverSaúde em 2026, no âmbito do IEG-SUS (Índice de Excelência em Gestão do SUS), é um dos primeiros a consolidar esse diagnóstico em escala nacional.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Hoje, 78% dos gestores municipais de saúde afirmam atuar em modo de urgência permanente, sem espaço para planejamento e gestão estruturados. Ao mesmo tempo, 48% das secretarias não possuem indicadores organizados, o que significa que quase metade do país toma decisões sem base em dados tratados e consolidados. A situação se agrava quando se observa que 53% não têm conhecimento sobre o centro de custos de suas unidades assistenciais, tornando impossível saber com precisão quanto se gasta, onde estão os desperdícios ou como otimizar recursos.

Na prática, o que emerge é um sistema que deixou de ser gerido de forma estratégica para operar de maneira reativa. Sem indicadores, sem controle financeiro e com baixa continuidade administrativa, o SUS municipal passa a funcionar como uma “organização às cegas”, um mecanismo de resposta imediata e não de planejamento e gestão de longo prazo.

Crédito da imagem: www.medicinasa.com.br (proibida a reprodução sem autorização)
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Esse cenário é intensificado por outro dado estrutural: 65% dos gestores, respondentes da Pesquisa, estão há menos de um ano no cargo. A alta rotatividade cria um ciclo de descontinuidade permanente do SUS nos municípios em que políticas são interrompidas, prioridades mudam rapidamente e o conhecimento acumulado se perde. A cada troca, o sistema praticamente recomeça do zero, levando um tempo expressivo para se reorganizar, frequentemente sem tempo ou estrutura para consolidar melhorias.

“O que vemos hoje é um sistema que, em muitos municípios, opera sem instrumentos básicos de gestão. Isso fragiliza drasticamente a capacidade de tomada de decisão e compromete a eficiência do SUS como um todo”, afirma Erico Vasconcelos, especialista em gestão do financiamento público da saúde que atuou no Ministério da Saúde do Brasil e fundador da UniverSaúde.

A análise regional reforça que o problema não é homogêneo. O estudo aponta que as regiões Norte e Nordeste concentram os quadros mais críticos, com maior ausência de indicadores e maior pressão assistencial, enquanto Sul e Sudeste apresentam níveis relativamente mais estruturados, ainda assim distantes de um padrão ideal de governança. O Centro-Oeste aparece como um ponto intermediário, marcado por crescimento acelerado sem evolução equivalente na gestão.

Um dos conceitos mais fortes que emerge do levantamento é o de um verdadeiro “apagão de gestão”. Sem dados confiáveis, sem metas claras e sem instrumentos de monitoramento e avaliação, grande parte das Secretarias Municipais opera como um sistema sem painel de controle, o que amplia riscos de ineficiência, desperdício de recursos e deterioração da qualidade do atendimento.

No campo financeiro, a ausência de controle cotidiano dos custos transforma o desafio em algo ainda mais complexo. Sem visibilidade sobre despesas e desempenho, os gestores perdem a capacidade de priorizar investimentos e corrigir distorções, criando um cenário em que o aumento de recursos nem sempre se traduz em melhoria de serviços.

O estudo chama atenção para um ponto central: “a crise do SUS na ponta ainda é pouco debatida sob a ótica da gestão. Enquanto o debate público costuma se concentrar em financiamento e acesso, os dados mostram que há um problema estrutural menos visível e potencialmente mais determinante, relacionado à forma como o sistema é administrado nos municípios”, finaliza Vasconcelos.

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