Inovações da Era Digital e a Cadeia de Suprimentos Hospitalar 4.0

Por Estela Takahachi, Gisela Mangabeira Sousa e Isabela Abreu

Já estamos vivenciando a Era Digital e o setor de saúde, reforçado pela pandemia ocasionada pelo novo coronavírus, está colocando muitas forças em inovação e transformação digital, carregando com isso toda a sua cadeia de suprimentos através de possibilidades de inovação nos processos de compras hospitalares e redesenho da estrutura de relacionamento entre players do setor, por meio de ações colaborativas.

Um dos maiores desafios atuais para a área médica está associado ao suprimento de equipamentos, medicamentos e materiais médicos em várias partes do mundo. Muitos produtos não faziam parte das previsões estatísticas até o momento, o pânico frente a uma nova situação acabou ocasionando um stockout de materiais médicos e medicamentos relacionados ou não à Covid-19.

Neste artigo abordamos uma das áreas mais críticas de um hospital: Suprimentos. O objetivo é falar sobre alternativas de aplicação de soluções baseadas em transformações digitais criando o conceito de Hospital 4.0, capaz de responder de forma mais assertiva em crises. Para tanto, abordamos também o quanto o mercado está preparado para atender às novas exigências que estão sendo descortinadas a partir da evolução das pesquisas sobre o “novo coronavírus”.

A Era Digital e o Hospital 4.0

Antes de falarmos sobre a Cadeia de Suprimentos de Hospitais, é importante frisarmos que novas práticas já estão sendo implementadas em hospitais, clínicas e consultórios em todo o mundo; sendo em pesquisa e desenvolvimento (P&D), equipamentos, novos tratamentos, processos laboratoriais, computadores, softwares de gestão hospitalar/clínica e etc. A aplicação dessas novas práticas, quando apoiadas em tecnologia, pode trazer o hospital para o conceito de “Hospital 4.0”.

O Hospital 4.0 tem como característica o uso de tecnologia em todos os seus processos buscando altos níveis de eficiência e produtividade, mitigação de erros e falhas humanas, personalização do atendimento ao paciente, além de redução de custos e vanguardismo em competitividade.

Na Era 4.0 os limites que existiam entre o mundo digital, o mundo físico e o mundo biológico estão desaparecendo e rapidamente se fundindo, virando algo único através do uso de Big Data, Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial (AI), robôs, entre outros.

Desta forma, as informações sobre recursos e elementos críticos conectados no ambiente hospitalar 4.0 são operadas e gerenciadas de forma completamente nova, no que diz respeito não apenas a tomada de decisões com diagnósticos mais precisos, mas com o gerenciamento de estoques, suprimentos e aquisições.

Conforme o Superintendente da ABIMO, Paulo Henrique Fraccaro, em entrevista ao Strattner News, “a consolidação de informações será parte integrante do sucesso nos investimentos de qualquer hospital, clínica etc.”

Contextualização quanto à Cadeia de Suprimentos e Logística Hospitalar

Segundo o Observatório 2020 da ANAHP (Associação Brasileira de Hospitais Privados), os hospitais indicam que dentre as despesas mais relevantes estão as despesas com suprimentos de medicamentos, materiais e OPMEs (Órteses, Próteses e Materiais Especiais), que representam em média 23% do total. Com a pandemia, essa situação se agravou puxada por um problema global de abastecimento de produtos, fazendo com que o custo com EPIs, por exemplo, ficasse cerca de 300% mais alto que o normal com aumentos de preços de até 500% em alguns SKUs. A Figura 1 ilustra essa situação.

Figura 1 – Representatividade da compra de medicamentos, OPMEs e materiais nas despesas hospitalares em 2019 e a percepção dos problemas com suprimentos ocorridos no primeiro semestre de 2020 com a pandemia (adaptado do Observatório 2020 ANAHP).

Segundo experiência da equipe GMC, a maioria dos hospitais não possui equipe de logística e supply chain especializada, como existente na indústria ou varejo, com conhecimentos de técnicas e operações que viabilizem redução de custos com estoque sem gerar impactos negativos como a falta de itens críticos. A exceção fica por parte dos grandes hospitais que atualmente já possuem superintendências, diretorias, gerências e/ou coordenadorias com equipe formada e especializada em logística e supply chain. Na maioria dos hospitais, a etapa de compras e gestão e controle de estoques fica sob responsabilidade de equipe de enfermaria que, apesar de bons conhecimentos médicos, nem sempre tem conhecimentos especializados em logística e supply chain.

Processos de aquisição de produtos médicos são considerados complexos, envolvendo uma grande quantidade de SKUs e diferentes formas de contratação (aluguel e consignação) e/ou compra. Essa complexidade aumenta quando constatamos que a maioria dos hospitais não possuem espaços para grandes estoques internos e, na maioria dos casos não possuem Centros de Distribuição ou armazéns externos, e, desta forma, acabam realizando pedidos menores que o lote mínimo para compra direta da indústria e dependendo da compra através de distribuidores com alta frequência de entrega. Outro agravante é a alta dispersão do estoque dentro do hospital que normalmente está distribuído em diversas farmácias, depósitos, enfermarias ou salas, situação que dificulta o controle e gestão de estoques.

Além destas particularidades internas dos hospitais, as questões associadas à distribuição global de matéria-prima e produção, além da capacidade de compra consolidada, como a recente ação dos EUA na compra de grande parte da produção global de EPIs durante a pandemia, são fatores que impactam fortemente o acesso e o custo com itens médicos e que exigem o desenvolvimento de um planejamento estratégico nacional e hospitalar.

“Estar preparado para uma crise pandêmica é ter estratégias para a produção interna e a reconversão industrial” – ANAHP, 2020.

Essa frase contida no Observatório 2020 ANAHP indica a relevância de uma discussão estratégica sobre compras, produção e disponibilidade de produtos para atendimento médico.

Soluções da Era Digital podem ser o grande diferencial em momentos de crise como o atual ocasionado pelo novo coronavírus. Como apurou o GenExatas, o primeiro trimestre de 2020 testemunhou o fechamento de fábricas e a redução da capacidade de transporte (entre 20% e 40% na China), ocasionando atrasos no suprimento e até a ruptura de estoques de diversas fábricas em todo o mundo e de diversos setores. Devido a isso, cada vez mais é necessário que as empresas busquem resiliência nas suas cadeias de suprimentos e definam as estratégias ao identificar fornecedores críticos, avaliar o impacto desses fornecedores nos seus negócios e desenvolver um plano de recuperação para garantir a capacidade de suas operações.

Uma rica discussão sobre os riscos de suprimentos de itens médicos associados ao desenho atual da rede de produção e distribuição global de produtos foi desenvolvida entre painelistas da Universidade de Stanford, indústria, farmácia e governo disponíveis no site da NCBI. Nessa discussão, soluções associadas a diversificação de fornecedores, não somente por empresas mas também por local de produção, foram citados como pontos importantes a serem considerados. Falou-se também da expectativa de abastecimento “just-in-time” por parte dos hospitais sem todo o alinhamento e processos e tecnologia existentes na cadeia automotiva onde esse modelo foi criado.

Cadeia de Suprimentos no Hospital 4.0: Ambiente Propício à Inovação Tecnológica

Com a aplicação de tecnologias de plataformas online, inteligência artificial e predições de demanda, por exemplo, é possível aperfeiçoar resultados financeiros através de controle de custos, gestão de fornecedores, gestão do tempo, redução de desperdícios e mitigação de erros.

Em uma breve pesquisa via Linkedin com equipes de grandes hospitais, a GMC mapeou algumas empresas que estão atuando no mercado brasileiro como empresas desenvolvedoras de softwares e plataformas online, com solução de apoio a etapa de compras e suprimentos para o setor hospitalar: BioNexo, Síntese, SAP Ariba, RedFox, Tasy, Apoio Cotações, Visual Software, Medical Virtual Market, TOTVS, GC Cotações, Smart Compras e Supply4Health. A figura 2 ilustra os processos nos quais tipos de soluções podem impactar.

Figura 2 – Processos impactados pela aplicação de softwares e/ou plataformas online de compras.

Em entrevista para a Deloitte, Miguel Cendoroglo Neto, Diretor Médico e Superintendente do Hospital Albert Einstein diz que o hospital usa inteligência artificial (IA) para aumento da capacidade na predição, com uso de algoritmos de predição com machine learning. Ele complementa dizendo que hoje o sistema é desagregado porque utiliza o modelo fee for service, onde cada ponta possui seus modelos: os hospitais, a indústria, os fornecedores e as operadoras de plano de saúde. IA pode ajudar ordenar a “agenda em comum” para ajudar na contemplação de todos os stakeholders: dos prestadores, as operadoras, fornecedores, governo e regulação.

Um exemplo interessante da aplicação de tecnologia para melhorar o processo de suprimentos de hospitais na construção de uma agenda comum tem estado associado à formação de grupos de compra conjunta, conhecido em inglês como GPO (Group Purchasing Organization). Atualmente, existem diversos grupos de compras conjuntas no Brasil através dos quais cada hospital indica a demanda prevista para alguns itens em uma plataforma online, uma equipe especialista em negociação concentra todas as demandas, contata fabricantes e distribuidores e realizada uma compra para o grupo. Finalizada a negociação, os pedidos são colocados ao fornecedor para cada hospital, de forma que as entregas sejam direcionadas a cada instituição. A figura 3 ilustra alguns grupos de compra conjunta e seu processo de compras através de plataforma online.

Figura 3 – Exemplo de grupo hospitalares de compras conjuntas de itens médicos através de plataforma de compras (adaptado de FEHOSP).

Segundo relatório da FEHOSP  (Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado de São Paulo), as compras conjuntas proporcionam uma redução de custo de mais de 10%, além de redução de risco de desabastecimento dos itens que fazem parte da cesta conjunta, aumento de transparência e maior troca de experiências entre hospitais. No entanto, a realização de compras conjuntas online tem importantes desafios como necessidade de melhoria nos processos de planejamento de compras de cada hospital, necessidade de unificação das marcas do produtos que serão compradas, regionalização da demanda, além do estabelecimento de novo modelo e cultura de processos no hospital.

“A criação de grupos de compra conjunta está muito em linha com o uso plataformas onlines, inteligência artificial, e com o conceito de economia compartilhada que a Era 4.0 traz. A evolução desse processo pode trazer um modelo disruptivo de planejamento dos sistemas de saúde tanto do ponto de vista dos hospitais, quanto do ponto de vista de planejamento estratégico da saúde de países e até global.

O trabalho de compras conjuntas abre espaço para discussões estruturais de estratégia de compras hospitalares, identificação e tratamento de riscos de suprimentos, facilitando e dando informações para uma atuação sinérgica. O próximo passo está na melhoria na qualidade das previsões das demandas por itens médicos (medicamentos, OPMEs e materiais) e na expansão e evolução das plataformas de compras conjuntas.

Em 2015, quando participei da elaboração do Panorama de Saúde e ampliamos a discussão do uso do modelo de GPO já trabalhado nos EUA para o Brasil, a ANAHP estava evoluindo na criação de seu grupo de compras e havia muitas dificuldades de alinhamento, sistemas e processo para expandir essa frente. Atualmente, já são mais de 50 grupos hospitalares de compras conjuntas no Brasil, havendo também a formação de grupos focados em farmácias.

A transformação digital viabiliza para players menores ganhos de escala através da economia compartilhada que até então apenas grandes empresas, com alto volume, conseguiam obter.” Gisela Mangabeira de Sousa, Sócia Executiva da GMC

 

Outro exemplo de solução para a frente de compras hospitalares foi desenhado pela RedFox com apoio da equipe GMC. Nessa plataforma, diversos fornecedores podem se cadastrar para atender a demanda por produtos e serviços. Esses fornecedores são contratados e avaliados independentemente por diversos players (hospitais, clínicas, farmácias, etc), criando um sistema cooperativo de qualificação de fornecedor (similar ao que utilizamos em sites de compra como Amazon ou MercadoLivre, onde os fornecedores são classificados segundo diversos critérios pelos próprios compradores e servem de parâmetro de seleção para novos compradores). Sistemas colaborativos como esse permitem aumento de confiança na realização de negócios, principalmente, no que diz respeito à players menores e com marcas menos famosas. Em situações de crise, como a pandemia causada pelo Covid-19, esse tipo de processo colaborativo pode auxiliar tanto na visibilidade dos players disponíveis (sejam disponíveis para venda quanto para doação) quanto na facilitação da compra segura de novos e pequenos players.

 

Figura 4 – Desenho esquemático do processo colaborativo de análise de fornecedores e produtos através de plataforma online HealthSupply da RedFox.

Em um contexto de inovação da frente de suprimentos hospitalares, a GMC visualiza grandes oportunidades voltadas a construção de plataformas para impressão 3D de próteses e órteses. Com a rápida evolução da tecnologia para impressão 3D já existem diversas aplicações para essa tecnologia que podem facilitar a gestão de compras desse tipo de produto e melhorar o acesso aos pacientes de produtos altamente personalizados (veja outros artigos sobre impressão 3D). Esse processo pode ser considerado como uma inovação na forma de produção mas também proporciona inovação na frente de compras, dado que o processo de especificação personalizada dos itens é um processo diferente do atual.


Diversos exemplos de soluções tecnológicas inovadoras voltadas ao ambiente hospitalar surgem anualmente. Segundo a pesquisa Gartner 2019 selecionamos alguns dos cases para ilustrar as novidades do segmento:

Civica RX: é uma empresa sem fins lucrativos criada com o objetivo de desenvolver parcerias para viabilizar a rápida produção de medicamentos genéricos a um baixo custo e disponibilizá-lo ao sistema de saúde Eles atuam como se fossem um grupo de compra conjunta (GPO) oferecendo previsões de demanda para diversos itens genéricos à fabricantes com o objetivo de viabilizar a produção a baixo custo de diversos medicamentos com formulação liberada. Eles são responsáveis pela busca aos fabricantes e a sua homologação, negociação e apresentação transparente de informações de preço entre associados e pelo contato entre indústrias, instituições de saúde e distribuidores. Além de medicamentos, eles também realizaram uma negociação de frete com a FedEx em 2019 para reduzir os custos logísticos de seus associados;

Intermouth Healthcare: essa empresa sem fins lucrativos atua na gestão de um fluxo colaborativo de ações que oferece e alinha com a indústria informações para reduzir o stockout de produtos, inclusive equipamentos (exemplo de trabalho realizado junto a J&J Devices que reduziu o stockout de equipamentos em 40%) e também para adequar produtos a necessidade médica (o programa clínico músculo esquelético juntou informações de diversos cirurgiões para padronizar produtos usados em cirurgias);

NaviHealth: com solução “centrada no paciente”, esse sistema utiliza informações do paciente para sugerir os itens médicos mais adequados ao paciente, considerando seu perfil financeiro e também seu histórico de tratamento;

Pantherxrare: uma solução focada na gestão de suprimentos para o tratamento de doenças raras. Muitas vezes, fazer com que seja possível os pacientes terem acesso aos remédios para tratar doenças raras é um grande desafio de supply chain. Essa solução que funciona como uma farmácia especial para esse tipo suprimentos, “centrada no paciente”, onde as necessidades especiais são tratadas dentro de um programa que conecta o paciente, médicos e suprimentos médicos (veja o vídeo dessa solução).

Os resultados e benefícios da aplicação de novas tecnologias na frente de suprimentos hospitalares são vários:

➔ Melhor atendimento, reduzindo riscos de faltas que podem impactar na saúde e vida dos pacientes
➔ Redução de custos do tratamento médico
➔ Tomada de decisões mais assertivas e em tempo real
➔ Gestão do tempo e otimização
➔ Gestão de fornecedores com informações sempre atualizadas
➔ Melhor e maior controle no tratamento dos dados
➔ Diminuição de erros em forecasts
➔ Controle de estoques e consequente menor tempo médio
➔ Mitigação de erros e retrabalhos
➔ Aumento da produtividade da equipe de operações


Conforme o Superintendente da ABIMO, Paulo Henrique Fraccaro, em entrevista ao Portal Setor Saúde, há muitas oportunidades para melhorias e inovação no Setor da Saúde, principalmente relacionadas à tecnologia. Porém aponta também os desafios vislumbrados na criação de “Hospitais 4.0”, como:

➔ Necessidade de pessoas capacitadas para implementar e manter o funcionamento das soluções
➔ Qualidade do acesso a internet e alto fluxo de dados, apesar dos avanços da fibra ótica no Brasil ainda há pontos de ineficiência a serem tratados e
➔ Investimentos em segurança da informação, com sistemas que combatam e previnam invasões ao sistema de dados

Apesar do otimismo do setor industrial, o Índice Global de Inovação Médica de 2019 mostra que o progresso da inovação ainda é lento na América Latina se comparado com os principais clusters de ciência e tecnologia que são os Estados Unidos, a China e a Alemanha; mas é importante destacar que o Brasil ocupa a 66ª posição global com destaque aos investimentos realizados com P&D, além da qualidade das publicações científicas e Universidades. O Índice ainda destaca o Brasil como o único país da região (América Latina e Caribe) a abrigar clusters de ciência e tecnologia classificados entre os 100 primeiros do mundo.

Considerações Finais

A Era Digital está acontecendo e, com isso, a transformação digital se tornou a base para sobrevivência de qualquer empresa, inclusive no Setor da Saúde. Desde a simplificação das cadeias de suprimentos nos hospitais, redução de stockouts e redução de custos de compras, até o melhor aproveitamento de recursos e pessoas, as soluções digitais são ferramentas estratégicas para aprimorar a gestão na área da saúde.

A implementação de uma cadeia de suprimento 4.0 é uma das maneiras onde o setor pode avançar permitindo uma prestação de serviços de saúde com vantagem clínica e operacional. A tecnologia será cada vez mais o grande diferencial para atender a desafios dos cenários e demandas que ainda estão por vir e a cadeia de suprimentos pode ser uma alavanca para ajudar no destaque desta atuação.


* Estela Takahachi é graduada em Administração pela Universidade Mackenzie e pós graduada em Gestão de Projetos na Fundação Vanzolini, com mais de 10 anos de experiências em Logística e Supply Chain, tendo atuado em indústrias e varejo.
* Gisela Mangabeira Sousa é Sócia Executiva da GMC Consultoria e Assessoria em Logística e Supply Chain LTDA.
* Isabela Abreu é CEO RedFox Soluções Digitais.