As mudanças na saúde suplementar no pós-pandemia

Por André Machado Junior

A pandemia da Covid-19 chegou ao Brasil em março e, com ela, veio à tona uma série de desafios no setor de saúde. Ao longo dos últimos quatro meses, mesmo com todos os esforços nas esferas pública e privada, percebeu-se que o sistema anseia por mudanças. É preciso rever o modo como os pacientes são atendidos e como os prestadores de serviço são pagos, para que mais pessoas tenham acesso à saúde e para que o setor seja sustentável.

Uma das opções é investir mais na Atenção Primária à Saúde (APS). A Atenção Primária à Saúde tem o poder de coordenar o cuidado e regular melhor o uso da assistência à saúde. As clínicas de APS contam com uma equipe de saúde da família que acompanha, monitora e cuida de cada pessoa de acordo com a sua condição de saúde, respeitando fatores como a idade, gênero, condições físicas e doenças pré-existentes. Ao promover a saúde e prevenir doenças, as clínicas de APS melhoram a qualidade de vida das pessoas e contribuem com a sustentabilidade financeira do setor privado e com a economia do país, já que evitam desperdícios em saúde e o uso descoordenado, pois passam a cuidar da pessoa e não da queixa/doença.

Embora ainda sejam pouco difundidas e valorizadas no Brasil, algumas medidas têm sido adotadas para estimular que a atenção primária seja o principal agente de cuidado e da gestão da saúde populacional, como resoluções da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que apoiam este modelo e até certificam as clínicas, formações mais frequentes de médicos da família e mudanças no modelo atenção em saúde com a implantação de APS por parte de algumas operadoras de saúde. Isto mostra que o movimento para a transformação já começou, mas ainda está lento, quando comparamos com todo o modelo de saúde suplementar que está instaurado no Brasil.

Mas a própria pandemia tem forçado e acelerado algumas mudanças necessárias no setor de saúde. Logo no início, com a necessidade do isolamento social, o Ministério da Saúde autorizou o exercício da telemedicina, um pleito antigo do setor que ainda encontrava grande resistência. A tecnologia se tornou uma aliada no combate à disseminação da doença, pois permitiu que as pessoas recebessem atendimento e tirassem dúvidas sobre sintomas relacionados à Covid-19 sem sair de casa, além de continuar cuidando de sua saúde, evitando a contaminação ao buscar atendimento presencial desnecessário e diminuindo as aglomerações nos prestadores de serviço de saúde.

Com a grande adesão por pacientes e profissionais de saúde, a telemedicina rapidamente ganhou força e passou a ser utilizada para todos os cuidados com a saúde. Hoje, é possível se consultar com nutricionista, psicólogo e médicos de diversas especialidades, de qualquer lugar do País, sem sair de casa. Ainda não se sabe se a autorização do Ministério da Saúde será mantida pós-pandemia, mas é fato que esse é um avanço que não poderia retroceder.

Outro fator na saúde que ganhou força durante a pandemia foi a necessidade de mudar o modelo de remuneração. Atualmente, grande parte das operadoras de planos de saúde segue o modelo fee for service, que remunera por serviço prestado. Esta prática resulta no mau uso dos recursos, pois pode gerar desperdícios e não garante o melhor cuidado. Com a remuneração por valor em saúde, o paciente está no centro do cuidado e o prestador recebe pela melhora da condição de saúde dele – e não pelos procedimentos realizados.

Durante a pandemia da Covid-19, o setor de saúde suplementar avançou em determinadas situações de uma maneira que não se via há muitos anos, mas ainda há muito mais a ser feito. Sabemos que toda mudança leva tempo e, se tratando de saúde, o tempo é precioso. Acreditamos muito no modelo de Atenção Primária em Saúde, reforçado por uso de tecnologia que leve mais valor para as pessoas e que garanta o cuidado adequado para cada condição de saúde. Somente assim, acredito que podemos levar mais saúde para mais pessoas, agora e no pós-pandemia.


*André Machado Junior é diretor de Mercado da Qualirede.