Saúde privada no Brasil não tem sistema. E isso explica quase tudo.
Por Matheus Moraes
O mercado de saúde suplementar brasileiro movimenta mais de R$ 350 bilhões por ano. É um dos maiores do mundo. E esse valor cresce anualmente. O que, por si só, não é ruim. Poderia significar mais tratamentos e a capacidade de curar mais doenças. E isso acontece com os avanços da medicina.
Porém, esses avanços acontecem numa velocidade inferior ao progresso dos custos. Especialmente no setor privado. Um dos principais motivos é a ausência de sistema.
Fala-se muito de desperdício e sobreuso. Joga-se a responsabilidade no paciente, no médico, no hospital. Todos podem ter uma parcela de impacto. Mas o que pouco se articula de forma simples é a ausência de um sistema de saúde privado.
O mercado privado de saúde é um emaranhado de produtos e serviços desconectados, financiado por operadoras que funcionam como administradoras de um cartão de crédito sem limite.
Na prática, um beneficiário típico pode usar qualquer serviço, em qualquer ordem, sem coordenação. Pode passar por cinco especialistas sem que nenhum saiba o que o outro prescreveu. E a operadora paga, porque o modelo foi construído para financiar uso. Não para organizar cuidado.
Isso não é culpa de ninguém em específico. Muito menos dos usuários. Os incentivos predominantes ainda são de frequência e custo unitário. A ANS tem feito um trabalho importante para organizar esse mercado. Mas o modelo de base permaneceu o mesmo. Quando não há quem coordene, o resultado tende a ser fragmentação, sobreuso e custo crescente.
Os melhores sistemas de saúde do mundo divergem em muita coisa. Mas convergem num ponto. O NHS britânico, os modelos nórdicos, o canadense, o coreano e o nosso SUS compartilham uma lógica de coordenação. Agentes com papéis definidos. Atenção primária como eixo. Dados integrados. Incentivos alinhados ao resultado de saúde. A pessoa não navega sozinha por uma lista infinita de serviços.
Na saúde privada brasileira, com poucas exceções, essa lógica não existe. Operadoras verticalizadas encontraram uma resposta legítima ao controlarem a cadeia. Muitas fazem um trabalho relevante. Mas o modelo resolve o problema financeiro principalmente pelo controle de uso, o que nem sempre equivale a entregar mais saúde.
Existe um outro caminho. Construir um sistema privado de saúde, através da própria operadora. Com agentes integrados, atenção primária como eixo de coordenação, prontuário eletrônico compartilhado, incentivos baseados em valor e o indivíduo no centro. Já existe iniciativa no Brasil que opera dessa forma e começa a mostrar resultados consistentes. Menor uso de pronto-socorro, maior adesão ao cuidado preventivo, melhor experiência para o beneficiário.
A saúde privada no Brasil precisa de uma mudança estrutural. Não basta colocar tecnologia sobre um modelo fragmentado. Não basta criar programas de prevenção desconectados do cuidado contínuo. O caminho passa por construir sistemas. Isso é extraordinariamente difícil. Mas é a única forma de fazer a saúde suplementar entregar o que deveria desde o início: mais saúde.
*Matheus Moraes é cofundador e COO da Alice.

