O que esperar para a saúde oncológica brasileira em 2026?
Por Elyara Soares
A oncologia brasileira caminha para 2026 em um momento de consolidação de transformações que vão além da introdução de novas terapias. O avanço científico observado nos últimos anos, somado ao uso cada vez mais intensivo de dados e inteligência artificial, redesenha a forma como o câncer é diagnosticado, monitorado e tratado. O foco deixa de ser apenas reagir à doença e passa a estruturar um cuidado mais preditivo, preciso e sustentável.
O crescimento da incidência do câncer, impulsionado principalmente pelo envelhecimento da população, amplia de forma significativa a pressão sobre o sistema de saúde. As estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA), que projetam cerca de 704 mil novos casos de câncer por ano no Brasil no triênio 2023–2025, evidenciam a magnitude do desafio e indicam uma tendência que deve se manter nos anos seguintes. Nesse cenário, o diagnóstico precoce assume papel estratégico, não apenas do ponto de vista clínico, mas também econômico. Diagnosticar melhor e mais cedo significa ampliar as chances de sucesso terapêutico, reduzir intervenções desnecessárias e otimizar recursos em um sistema que já opera no limite.
A relevância dessa abordagem é reforçada por dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo os quais até 50% dos casos de câncer podem ser prevenidos ou apresentar prognóstico significativamente melhor quando identificados precocemente e diagnosticados de forma adequada. Esse dado reforça a necessidade de deslocar o foco do cuidado oncológico para etapas mais iniciais da jornada, valorizando estratégias de rastreamento, triagem e diagnóstico de maior precisão.
É nesse contexto que a tecnologia ganha protagonismo. A incorporação de ferramentas baseadas em inteligência artificial e análise avançada de dados vem redefinindo o diagnóstico oncológico. O uso intensivo de dados clínicos, laboratoriais e de imagem permite identificar padrões complexos, apoiar decisões médicas e reduzir incertezas ao longo da jornada do paciente. Em 2026, a expectativa é que essas soluções estejam ainda mais integradas à prática assistencial, atuando como suporte à decisão clínica e ampliando a precisão diagnóstica.
No diagnóstico laboratorial, esse movimento se traduz na adoção crescente de testes mais sensíveis e específicos, como exames moleculares, biópsias líquidas e métodos de monitoramento da resposta ao tratamento. Essas tecnologias permitem acompanhar a evolução da doença de forma menos invasiva e mais contínua, oferecendo informações relevantes para ajustes terapêuticos ao longo do tempo. A automação e o uso de algoritmos também contribuem para maior padronização, agilidade e confiabilidade dos resultados, aspectos fundamentais em oncologia.
Do ponto de vista de mercado, a oncologia permanece como um dos segmentos mais estratégicos da saúde, concentrando investimentos em inovação, digitalização e pesquisa clínica. A ampliação de estudos clínicos no Brasil reforça o papel do país no cenário global e amplia o acesso a terapias inovadoras. No entanto, esse avanço exige infraestrutura adequada, capacitação constante dos profissionais de saúde e modelos de incorporação tecnológica que considerem impacto clínico, custo e sustentabilidade.
Apesar dos avanços, o desafio do acesso segue como um dos pontos centrais no horizonte de 2026. As desigualdades regionais e as diferenças entre os sistemas público e suplementar evidenciam a necessidade de políticas públicas consistentes, atualização de protocolos e integração entre os diferentes níveis de atenção à saúde. A tecnologia, por si só, não resolve essas questões, mas pode ser uma aliada importante quando incorporada de forma estratégica e orientada por evidências.
A convergência entre saúde, dados e inteligência artificial aponta para um modelo de cuidado oncológico mais integrado e centrado no paciente. Nesse modelo, o diagnóstico deixa de ser um evento isolado e passa a acompanhar toda a jornada do cuidado, sustentando decisões clínicas mais informadas e personalizadas.
Em 2026, a saúde oncológica brasileira tende a avançar na consolidação desse novo paradigma. O desafio para líderes e profissionais de saúde será transformar inovação tecnológica em impacto real, equilibrando avanço científico, sustentabilidade do sistema e ampliação do acesso. O futuro da oncologia passa, necessariamente, pela capacidade de integrar dados, tecnologia e conhecimento clínico em benefício do paciente.
*Elyara Soares é gerente de assuntos científicos da Binding Site.

