Estudo brasileiro encontra ligação entre saúde mental de pacientes reumáticos com sequelas da Covid-19

Uma pesquisa brasileira, conduzida pela Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (FMUnB) e publicada na revista Advances in Rheumatology, acende um alerta para médicos e pacientes com doenças reumáticas autoimunes que contraíram covid-19. O estudo, que acompanhou mais de 600 pacientes, descobriu que, mesmo sem um agravamento objetivo da doença reumática, aqueles que tiveram covid-19 apresentaram níveis maiores de fadiga, depressão, ansiedade e estresse.

De acordo com os achados do estudo, essas sequelas podem ser confundidas com uma piora da doença e induzir ao um diagnóstico incorreto de reativação da doença quando, na verdade, trata-se de uma combinação de sequelas de covid-19 e sofrimento emocional do paciente.

Os pacientes foram divididos em dois grupos: os que tinham Doença Reumática Inflamatória Microbiana (DRIM) como artrite reumatoide (RA) e Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) – e contraíram covid-19 e, pacientes com as mesmas doenças, mas que não foram acometidos pelo vírus da covid-19. Chamado ReumaCoV Brasil, o estudo foi realizado em 13 centros universitários espalhados pelas cinco regiões do país, entre maio e dezembro de 2020.

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“Os dados do estudo são muito relevantes e nos mostram que as sequelas da covid-19 (fadiga, depressão, ansiedade e estresse) são tão intensas que podem ser facilmente confundidas com um agravamento da própria doença reumática. Isso cria um dilema para os médicos e um sofrimento desnecessário para os pacientes”, explica uma das autoras da pesquisa, a professora do programa de pós-graduação em Ciências Médicas da Faculdade de Medicina da Universidade Brasília (UnB), Licia Maria Henrique da Mota, médica reumatologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB).

Os resultados, de acordo com ela, revelam atenção ao:

  • Diagnóstico mais preciso: Com esses dados disponíveis, os médicos estarão cientes de que a fadiga e o sofrimento psicológico pós-covid-19 podem mascarar a real atividade da doença reumática, possibilitando um diagnóstico mais preciso. “Isso exigirá uma avaliação mais cuidadosa e holística do paciente, evitando tratamentos desnecessários ou inadequados para a doença reumática, quando o problema pode ser de saúde mental ou fadiga pós-viral”, explica.
  • Tratamento Abrangente: O estudo reforça a necessidade de uma abordagem multidisciplinar. “Pacientes com doenças reumáticas autoimunes que tiveram covid-19 podem precisar de suporte psicológico e tratamento para fadiga crônica, além do manejo de sua doença reumática. Ignorar esses aspectos pode levar a uma piora da qualidade de vida, mesmo que a doença reumática esteja controlada”, alerta.
  • Otimização de Recursos no SUS: De acordo com a pesquisadora, ao diferenciar os sintomas psicológicos da atividade da doença, o sistema de saúde pode otimizar o uso de medicamentos caros para doenças reumáticas, direcionando recursos para o tratamento da saúde mental e da fadiga, quando apropriado.
  • Melhor Qualidade de Vida: “Para o paciente, entender que seus sintomas de fadiga, depressão ou ansiedade podem ser uma sequela da covid-19 – e não necessariamente um agravamento da sua doença reumática – pode trazer alívio e direcionar para o tratamento correto, melhorando significativamente sua qualidade de vida” explica.

“Ao cuidar de pacientes com condições crônicas, especialmente após eventos como a pandemia de covid-19, é fundamental adotar um olhar integral, que considere não apenas os aspectos físicos da doença, mas também o profundo impacto na mente e no bem-estar emocional”, diz Licia.

A médica ressalta que o estudo reforça a complexidade da interação entre infecções virais, doenças autoimunes e saúde mental. “É muito importante falar de cansaço e dos sintomas que podem estar relacionados às questões emocionais durante a consulta”, aconselha aos pacientes.

A pesquisa

O estudo ReumaCoV Brasil foi conduzido por uma equipe de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (FMUnB) A pesquisa avaliou um total de 601 pacientes (321 que tiveram COVID-19 e 280 controles que não tiveram a infecção) e foi realizada entre os meses de maio e de dezembro de 2020, abrangendo 13 centros universitários distribuídos em todas as cinco regiões geográficas do Brasil . O trabalho foi publicado na revista científica Advances in Rheumatology em janeiro de 2025, oferecendo uma análise longitudinal de seis meses sobre o impacto da infecção viral na atividade da doença, fadiga e sofrimento psicológico em pacientes com doenças reumáticas autoimunes.

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