A saúde de 2040 será incrível. Mas para quem?
Por Leonardo Brazão
Quando falamos em inovação, é comum pensar em tecnologias futuristas, grandes investimentos e projetos ambiciosos que prometem transformar setores inteiros. No entanto, muitas dessas iniciativas acabam não saindo do papel ou não se sustentam no tempo, justamente por ignorarem um ponto importante: a inovação precisa nascer das pessoas e voltar para elas em forma de soluções práticas.
Um estudo recente da Deloitte nos convida a imaginar a saúde em 2040: um ecossistema digital, proativo e altamente personalizado, em que dados fluem de forma inteligente entre prontuários, wearables e plataformas de bem-estar. A promessa é de um cuidado contínuo, focado na prevenção, que trata não apenas o corpo, mas o indivíduo em sua totalidade física, emocional e social. É uma visão poderosa.
Mas há um “bug” nesse futuro. Entre a promessa da tecnologia e a realidade da ponta, existe um abismo. E ele é preenchido por médicos sobrecarregados, pacientes ansiosos e sistemas que, muitas vezes, criam mais barreiras do que pontes. A corrida pela inovação em saúde, obcecada por big data e inteligência artificial, esqueceu de seu principal componente: as pessoas.
O verdadeiro “bug” no sistema da inovação em saúde é a ausência de empatia. De que adianta um prontuário eletrônico revolucionário se ele não foi desenhado para a rotina caótica de um médico e se torna um fardo burocrático? Qual o valor de uma plataforma de telemedicina que, por ignorar as barreiras de conectividade, exclui justamente os pacientes que mais precisam dela? Tecnologia sem humanização não conecta, ela isola.
Inovar de verdade é colocar pessoas no centro, desde a concepção até a aplicação. Isso significa ouvir, cocriar e validar com quem vive os problemas diariamente. No setor de saúde, essa abordagem se torna ainda mais urgente.
A inovação que importa não nasce em laboratórios de tecnologia, mas na escuta ativa de quem vive o problema. Ela floresce em workshops colaborativos que unem, na mesma mesa, o desenvolvedor, o médico, o gestor, o enfermeiro e, principalmente, o paciente e sua família. É o que chamo de inovação “de pessoas para pessoas”: um modelo que troca a arrogância da solução pronta pela humildade da co-criação.
Para “rebootar” o sistema e construir esse futuro de forma sustentável, o caminho não é um checklist, mas uma mudança de mentalidade, que se traduz em ações práticas:
Mapear a jornada, não apenas os dados. Antes de investir milhões em um software, invista tempo para seguir a sombra de um paciente por um dia. As maiores oportunidades de inovação não estão nos grandes processos, mas nas pequenas fricções: a espera, a informação duplicada, a comunicação que falha.
Co-criar, não apenas entregar. A solução para a sobrecarga da equipe de enfermagem não virá de um consultor externo, mas da própria equipe. As melhores ideias nascem de ambientes seguros onde quem sente a dor tem a liberdade de desenhar a solução.
Pilotar antes de escalar. A cultura do “beta perpétuo” é crucial. Testar soluções em pequena escala, com ciclos rápidos de feedback, reduz riscos, economiza recursos e, mais importante, permite que a tecnologia se molde às necessidades humanas (e não o contrário).
Mensurar o impacto humano. As métricas da inovação em saúde não podem ser apenas ROI ou eficiência operacional. Precisamos de “KPIs de humanidade”: a redução da ansiedade do paciente, o aumento da satisfação da equipe clínica, o tempo de qualidade que um médico ganha para, de fato, cuidar.
O futuro previsto pela Deloitte é inevitável e bem-vindo. Mas a pergunta que definirá o sucesso dessa jornada não é “o que a tecnologia pode fazer?”, e sim “quais dores humanas estamos dispostos a curar com ela?”.
A resposta definirá para quem a incrível saúde de 2040 será, de fato, uma realidade. E ela será construída não com mais código, mas com mais conversa. Com menos discursos e mais escuta. Porque no fim, não é a máquina que sustenta nosso sistema de saúde. São as pessoas. E a inovação de verdade precisa começar e terminar com elas.
*Leonardo Brazão é cofundador da 1601 – Consultoria de Inovação.

