Por que a próxima revolução da saúde não será tecnológica
Durante muitos anos, a transformação digital da saúde foi medida pela velocidade com que novas tecnologias chegavam ao mercado. Inteligência artificial, telemedicina, prontuários eletrônicos, computação em nuvem, dispositivos vestíveis e interoperabilidade passaram a ocupar lugar central nas estratégias de hospitais, operadoras, startups e órgãos públicos. A expectativa era de que a inovação tecnológica, por si só, fosse capaz de redefinir a forma como cuidamos das pessoas.
Hoje, entretanto, essa percepção começa a mudar. Os principais desafios da saúde digital deixaram de estar relacionados ao desenvolvimento de novas soluções e passaram a envolver a capacidade do próprio sistema de saúde de incorporá-las de forma sustentável, ética e integrada. Questões como governança de dados, modelos de remuneração, regulação, interoperabilidade e responsabilidade sobre o uso da inteligência artificial tornaram-se tão ou mais relevantes do que a própria tecnologia.
Essa mudança de perspectiva esteve no centro das discussões do encontro “Cuidado Contínuo: A Nova Fronteira da Saúde Digital”, promovido pela ABSS & HT (Associação Brasileira de Startups de Saúde & Healthtechs), em parceria com a Nextrun, no InovaHC, em São Paulo. Reunindo representantes da academia, hospitais, operadoras, indústria e startups, o evento reforçou um consenso que vem ganhando espaço no setor: a próxima transformação da saúde será institucional antes de ser tecnológica.
Do tratamento da doença à promoção permanente da saúde
O modelo tradicional de assistência foi estruturado para responder a episódios de doença. O paciente apresenta um sintoma, procura atendimento, recebe diagnóstico, tratamento e alta. Essa lógica mostrou enorme eficiência ao longo de décadas, especialmente diante de quadros agudos.
O cenário demográfico e epidemiológico, contudo, mudou profundamente. O envelhecimento da população, o aumento das doenças crônicas e a necessidade de acompanhamento contínuo exigem um sistema capaz de atuar antes da doença, acompanhando o indivíduo ao longo de toda a vida.
É justamente nesse contexto que ganha força o conceito de “Cuidado Contínuo”, cuja proposta é substituir uma assistência episódica por uma relação permanente entre pessoas, profissionais e sistemas de saúde. O foco deixa de ser apenas tratar enfermidades e passa a ser preservar a saúde, prevenir riscos e promover qualidade de vida.
Dados existem. O desafio é transformá-los em inteligência
Nunca a saúde produziu tantos dados. Relógios inteligentes monitoram sono, frequência cardíaca e atividade física. Hospitais armazenam imagens diagnósticas em larga escala. Laboratórios geram milhões de exames todos os dias. Operadoras acumulam históricos assistenciais capazes de revelar padrões importantes sobre a saúde da população.
O problema, porém, não está na quantidade de informações disponíveis. Grande parte desses dados permanece isolada em sistemas que não conversam entre si, dificultando a construção de uma visão integrada da jornada do paciente. Mais do que ampliar a interoperabilidade técnica, especialistas defendem agora a necessidade de uma interoperabilidade semântica, capaz de garantir que diferentes plataformas compreendam o significado clínico das informações compartilhadas.
Somente assim será possível transformar grandes volumes de dados em decisões capazes de gerar valor para pacientes e profissionais.
Inteligência artificial amplia possibilidades, mas também responsabilidades. A IA já demonstra resultados concretos no apoio ao diagnóstico, na interpretação de exames, na automação de processos administrativos e na otimização de fluxos assistenciais.
À medida que essas aplicações deixam de ser experimentais para ocupar espaço crescente na rotina clínica, surge uma nova agenda de desafios.
Quem responde por uma recomendação gerada por um algoritmo? Como validar modelos que aprendem continuamente? De que forma garantir que soluções treinadas em determinados grupos populacionais mantenham precisão quando aplicadas em contextos distintos?
Entre especialistas, cresce o entendimento de que a IA deve atuar como ferramenta de apoio à decisão clínica, preservando o profissional de saúde como responsável final pelo cuidado. O conceito de *human in the loop* deixa de ser apenas uma recomendação técnica e passa a representar um princípio essencial para uma adoção segura dessas tecnologias.
A inovação passa a ser também uma discussão ética
Talvez o aspecto mais provocativo da transformação digital atual não esteja relacionado à tecnologia em si, mas aos limites de sua utilização.
Se já é possível monitorar continuamente indicadores de saúde, devemos fazê-lo em qualquer situação? Até que ponto pacientes desejam compartilhar seus dados? Operadoras podem criar incentivos financeiros para quem aceita esse monitoramento? Empresas poderão utilizar informações de saúde em programas corporativos? Existe, afinal, um direito de não ser monitorado ou até mesmo de não conhecer determinados riscos futuros?
São questões que extrapolam a engenharia de software e passam a envolver bioética, direito, políticas públicas e direitos individuais.
Tecnologia sem incentivo econômico dificilmente escala
Outro desafio destacado durante as discussões envolve os modelos de remuneração da saúde.
Embora existam evidências de que estratégias preventivas e acompanhamento longitudinal reduzem hospitalizações e melhoram desfechos clínicos, boa parte dos mecanismos de pagamento ainda remunera predominantemente consultas, exames e procedimentos.
Enquanto a lógica financeira continuar centrada no tratamento da doença, iniciativas voltadas à prevenção e ao cuidado contínuo encontrarão barreiras para ganhar escala, independentemente do avanço tecnológico disponível.
Uma agenda construída de forma colaborativa
O debate evidenciou que o Brasil dispõe de boa parte das tecnologias necessárias para acelerar sua transformação digital. O grande desafio passa a ser construir mecanismos capazes de integrá-las de forma segura, sustentável e centrada no paciente.
Isso envolve estabelecer regras claras para o uso da inteligência artificial, fortalecer a governança dos dados, ampliar a interoperabilidade entre instituições, desenvolver critérios de certificação para algoritmos e dispositivos digitais, criar indicadores que valorizem promoção da saúde e prevenção, além de revisar modelos econômicos que hoje favorecem a assistência baseada em procedimentos.
Nenhuma dessas mudanças poderá ser conduzida isoladamente. Elas exigem cooperação entre governo, hospitais, operadoras, indústria, academia, startups e entidades representativas do setor.
Nesse contexto, surgiu durante o encontro a proposta de criação do **Fórum Brasileiro de Cuidado Contínuo e Saúde Digital**, iniciativa liderada pela Nextrun com o objetivo de reunir diferentes atores do ecossistema para discutir recomendações voltadas a políticas públicas, governança, marcos regulatórios e diretrizes para o uso ético da inteligência artificial e dos dados em saúde.
A proposta parte de uma constatação simples: a transformação da saúde dependerá menos do próximo algoritmo revolucionário e muito mais da capacidade coletiva de construir confiança, alinhar incentivos e desenvolver um sistema preparado para utilizar a tecnologia em benefício das pessoas.
A pergunta que passa a orientar o setor
Durante anos, a principal questão da inovação em saúde foi identificar qual tecnologia seria capaz de transformar o setor.
Talvez a pergunta mais importante agora seja outra: o sistema de saúde está preparado para incorporar essas tecnologias de forma responsável, integrada e sustentável?
Responder a esse desafio exigirá liderança, colaboração e visão de longo prazo. A próxima etapa da saúde digital será definida não apenas pela evolução tecnológica, mas pela capacidade do ecossistema de construir um modelo de cuidado mais inteligente, preventivo, conectado e verdadeiramente centrado nas pessoas.
*Lilian Ishida Arai é diretora médica da ABSS (Associação Brasileira de Startups de Saúde), Coordenadora de Parcerias Estratégicas do ICT da FAVC (Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo) e co-founder da NextRun e Move Sapiens.

