Prematuridade custa R$ 37 milhões por dia ao país e R$ 13,5 bilhões por ano

O Brasil convive com uma crise silenciosa, cara e, em grande parte, evitável. Em 2024, quase 300 mil bebês nasceram prematuros no país, cerca de 12% de todos os nascimentos, percentual acima da média global de 10%. O dado coloca o Brasil entre os países com maior número absoluto de partos prematuros no mundo e reforça um alerta: a prematuridade precisa ser tratada como prioridade por todas as áreas da administração pública, e não apenas pela Saúde.

Caracterizada pelo nascimento antes das 37 semanas de gestação, a prematuridade está diretamente relacionada a maior risco de mortalidade infantil, complicações respiratórias, neurológicas e de desenvolvimento, além de reinternações frequentes e repercussões duradouras para as famílias. É também uma das principais causas de morte em crianças menores de 5 anos no mundo.

O impacto econômico desse cenário é bilionário. Segundo levantamento da Planisa, consultoria especializada em custos hospitalares, o Brasil gasta cerca de R$ 13,5 bilhões por ano apenas com a primeira internação, logo após o nascimento, de bebês prematuros em UTIs neonatais. Isso significa um custo de aproximadamente R$ 1,1 bilhão por mês, R$ 37 milhões por dia e mais de R$ 1,5 milhão por hora. E esse valor não inclui reinternações, terapias, acompanhamento especializado, sequelas de longo prazo ou os custos indiretos suportados pelas famílias e pela sociedade.

Para se ter a dimensão desse impacto, de acordo com dados do Ministério da Saúde, os acidentes de trânsito geram um custo estimado de cerca de R$ 1,38 bilhão por ano em internações hospitalares no SUS. Ou seja, apenas a primeira internação de bebês prematuros em UTIs neonatais, que alcança aproximadamente R$ 13,5 bilhões anuais, representa quase 10 vezes esse valor. Ainda assim, enquanto o trânsito mobiliza campanhas permanentes, fiscalização rigorosa, educação e ações coordenadas entre diferentes áreas do poder público, a prematuridade segue recebendo atenção muito menor do que deveria, apesar do seu impacto sanitário, social e econômico muito mais expressivo.

O país avançou nos últimos anos na redução da mortalidade infantil, mas os óbitos neonatais, aqueles que acontecem nos primeiros 28 dias de vida, continuam concentrando a maior parte das mortes de bebês. E a prematuridade está diretamente ligada a esse cenário. Ela também se relaciona com aumento do risco de paralisia cerebral, dificuldades de aprendizagem, transtornos respiratórios crônicos, déficits cognitivos, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade e transtorno do espectro autista, exigindo acompanhamento contínuo e ampliando os custos sociais e econômicos ao longo da vida.

Essa relação direta entre incidência e custo ajuda a explicar por que regiões como Norte e Nordeste, com maiores taxas de prematuridade, enfrentam também maior pressão sobre a rede assistencial. Nessas localidades, a demanda por leitos de UTI neonatal cresce de forma proporcional, ampliando desafios como acesso, sobrecarga de equipes e qualidade do cuidado. Como consequência, estados dessas regiões podem demandar até três vezes mais investimento proporcional em atenção neonatal quando comparados ao Sul e Sudeste.

Quando os dados são ajustados pelo tamanho da população, a desigualdade regional se torna ainda mais evidente. Levantamento com base em dados de nascimentos do Ministério da Saúde para 2024, cruzados com estimativas populacionais do IBGE, mostra que estados da região Norte lideram o ranking nacional de prematuridade proporcional. Roraima apresenta a maior taxa do país, com cerca de 283 prematuros a cada 100 mil habitantes (2,8 por mil), seguido por Acre, com aproximadamente 226 por 100 mil (2,3 por mil), e Amapá, com cerca de 207 por 100 mil (2,1 por mil).

Na sequência aparecem Amazonas, com cerca de 187 prematuros por 100 mil habitantes (1,9 por mil), e Alagoas, com aproximadamente 184 por 100 mil (1,8 por mil), reforçando a concentração de maior carga relativa da prematuridade nas regiões Norte e Nordeste.

Em contraste, estados mais populosos do Sudeste concentram os maiores números absolutos de casos, mas apresentam taxas proporcionalmente menores. São Paulo, por exemplo, registrou mais de 57 mil nascimentos prematuros em 2024, o maior volume do país, mas com taxa aproximada de 126 por 100 mil habitantes (1,26 por mil), abaixo da média nacional, estimada em cerca de 138 por 100 mil habitantes (1,38 por mil).

Investir na prevenção da prematuridade significa investir em saúde da mulher, planejamento reprodutivo, prevenção da gravidez na adolescência, acesso a exames, qualidade do pré-natal, identificação precoce de gestações de risco e garantia de parto seguro e respeitoso. Não basta ampliar o número de consultas: é preciso melhorar a qualidade da assistência, garantir encaminhamento adequado e ampliar a oferta de exames no pré-natal, como ultrassonografias e exames laboratoriais capazes de identificar precocemente fatores de risco, infecções, alterações placentárias e condições como pré-eclâmpsia, insuficiência istmo-cervical e trombofilias, dentre outras condições.

Também é necessário comunicar mais e melhor. A população ainda sabe pouco sobre as causas e consequências do parto prematuro, os sinais de alerta na gestação e os fatores de risco que podem ser prevenidos. O Brasil precisa de campanhas de massa de conscientização sobre prematuridade, assim como já acontece em outras agendas de saúde pública. Informar salva vidas e reduz custos.

A prematuridade não é apenas uma questão de saúde. É uma pauta de desenvolvimento social, de direitos humanos, de primeira infância, de combate às desigualdades e de responsabilidade fiscal. Investir em prevenção custa muito menos do que arcar, todos os anos, com as consequências de milhares de nascimentos precoces evitáveis e suas consequências.

Mais do que números, estamos diante de vidas – e de uma escolha coletiva. A prematuridade evitável expõe, de forma inequívoca, onde o sistema falha antes mesmo do nascimento. Enfrentá-la é uma decisão estratégica de país. É intervir no ponto mais sensível do ciclo de vida, onde pequenas decisões geram consequências profundas e duradouras. É, no fim das contas, agir na origem das desigualdades, com efeitos persistentes sobre saúde, desenvolvimento e formação de capital humano – e, portanto, sobre a qualidade do futuro que se constrói como sociedade.

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